Novidades

Evangelho de Lucas

saolucasNeste artigo trazemos alguns elementos para leitura e contextualização do evangelho de Lucas. Boa leitura!

  1. Destinatário

Lucas é o único evangelho em que há indicações de um destinatário: Teófilo (1,3), o mesmo do livro dos Atos dos Apóstolos (At 1,1). Quem será esse Teófilo? Pode ser alguém importante que financiou a obra, como era costume na época. Pode ser também alguma autoridade romana a quem Lucas quer apresentar Jesus e defender os cristãos. Pode ser simplesmente um nome simbólico, isto é, “amigo de Deus”  (Théos-phylos).

Lendo o evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, percebe-se que os verdadeiros destinatários são as comunidades cristãs espalhadas pelo Império Romano, ligadas a Paulo e que podem ser caracterizadas como:

  1. Comunidades urbanas, diferentes das comunidades rurais da Palestina. A palavra “cidade’ aparece 40 vezes em Lucas, enquanto em Mateus aparece 26 vezes e em Marcos apenas 8 vezes. No livro dos Atos, Paulo anda de cidade em cidade;
  2. Comunidades nas quais participam ricos e pobres. Lucas é o único que narra a conversão de Zaqueu, que era rico (19,1-10), e é veemente em apontar os perigos da riqueza, insistindo na necessidade de se desfazer dela e de dar esmolas (3,11; 5,11.28; 6,30; 11,41; 12, 33-34; 14, 13.33; 16,9; 18,22; 19,8). O flagrante contraste de pobres e ricos é enfatizado nas bem-aventuranças e maldições, que são uma interpelação direta aos ouvintes (6,20-26), e na parábola do pobre Lázaro (16,19-31);
  3. Comunidades em que há cristãos que se converteram, mas continuaram ligados às instituições do Império (7,1-10). Publicanos e soldados acorrem à pregação de João Batista (3,12-14). Lucas não quer criar problemas com o Império que já está perseguindo os cristãos. Só no seu Evangelho, Jesus, antes de morrer, pede perdão ao Pai por aqueles que o condenaram, ‘porque não sabem o que fazem’ (23,34);
  4. Em Lucas, Jesus, dá especial atenção às mulheres (7,36-50; 8,1-3; 10,38-42; 13,10-17; 15,8-10). Isto é muito significativo numa época em que a mulher era marginalizada e não contava. As mulheres tinham uma presença marcante nas igrejas que se reuniam nas casas;
  5. No episódio dos discípulos de Emaús (24,13-35), próprio de Lucas, sente-se que há uma situação de desânimo, de decepção, de quase revolta. As comunidades, lá pelos anos 80, deviam atravessar uma crise muito forte. Os cristãos eram uma pequena minoria, sujeita a todo tipo de repressão e ameaça. Muitos estavam abalados em sua fé em Jesus e não se sentiam seguros na vida solidária e fraterna da comunidade. Era preciso renovar sua fé na presença incógnita de Jesus ressuscitado e salientar o valor da partilha à mesa, onde ele se revelava.
  1. Autor e objetivo

O autor, apesar de apresentar a Teófilo o seu objetivo de um modo tão pessoal, não se identificou, não assinou a sua obra. A tradição, desde o final do século II, reconheceu a Lucas como o autor do terceiro Evangelho e do livro dos Atos dos Apóstolos.  Embora não tenha conhecido pessoalmente a Jesus, Lucas foi companheiro de Paulo nas suas viagens missionárias (At 16,10-17; 20,5-15; 21,1-28; 27,2-28,16). Paulo se refere a ele com simpatia (cl 4,14; Fm 24; 2Tm 4,11), como ‘médico caríssimo” e colaborador. A opinião geral entre estudiosos é que Lucas era um “prosélito” de Antioquia, um pagão convertido.

Pelo escrito, percebe-se que o autor é uma pessoa estudada, que domina muito bem o grego, sua língua materna, e, apesar de não ser judeu, conhece profundamente a Escritura. Não deve ter vivido na Palestina e não conhece bem sua geografia: confunde a Judéia com a Galiléia (4,44; 7,17; 23,5), e a grande viagem de Jesus para Jerusalém (9,51-19,27) segue um roteiro meio complicado.

A data de composição do terceiro evangelho é por volta dos anos 80 a 85 d.C. Parece aludir a pormenores da tomada de Jerusalém (21,21-24), que foi no ano 70. Deve ter sido escrito em algum lugar da Ásia ou da Grécia.

Lucas apresenta Jesus como “o salvador do mundo” (2,30-32;24,47), como “ o libertador dos pobres, oprimidos e marginalizados” (4,18.19; 6,17-26), como “o Senhor” (1,43; 5,8), como “o revelador da misericórdia do Pai” (15,1-32), como “o profeta de Deus” (24,19), que se entregava com freqüência à oração (3,21; 5,16; 6,12; 9,18.28-29; 11,1; 22,41).  Mostra também que, para ser discípulo de Jesus, é preciso decidir-se firme e definitivamente (9,57-62), despojar-se de tudo (14,25-33; 18,18-23), ser misericordioso (10, 29-37), ser perseverante e confiar (11,5-13; 12,22-32), ser vigilante (12,35-48).

  1. Esquema do Evangelho

A composição literária do terceiro evangelho pode ser dividida em quatro partes: 1. Introdução geral; 2. Missão de Jesus na Galiléia; 3. Subida para Jerusalém; 4. Em Jerusalém.

  1. Introdução geral: 1,1 – 4,13;
  2. Missão de Jesus na Galiléia: 4,13 – 9,50;
  3. A subida para Jerusalém: 9,51 – 19,27;
  4. Em Jerusalém: 19,28 – 24,53.

Com seus 1.149 versículos, Lucas é o mais longo dos evangelhos sinóticos. Comparando o seu esquema com o esquema de Marcos, notam-se três acréscimos ou interpelações: 1,5 – 2,52; 6,20 – 8,3; 9,51 – 18,14. Como boa parte destes acréscimos se encontra também em Mateus, os estudiosos concluem que Lucas e Mateus se utilizaram do evangelho de Marcos e também de uma outra fonte.

  1. Chaves de leitura

Lucas fixou sua atenção principalmente em alguns aspectos da vida cristã. Podemos dizer que o seu evangelho é:

  • Evangelho do Espírito;
  • Evangelho da Misericórdia de Deus;
  • Evangelho dos pobres e marginalizados;
  • Evangelho da valorização da mulher;
  • Evangelho do “caminho”.
  1. Lucas é o evangelista do Espírito (1,36.41; 2,26; 4,1.14; 10,21; 12,10). É o Espírito que solda a ligação entre o Antigo Testamento, Jesus e a Igreja: agia nos profetas do Primeiro Testamento, foi decisivo na vinda e na vida de Jesus e está presente na vida da Igreja. É o evangelho do Espírito;
  1. Evangelho da Misericórdia de Deus. No evangelho Lucas respira-se um clima de misericórdia. É a recomendação expressa de Jesus (6,36-38), que se comove com a dor da viúva de Naim (7,13-14) e perdoa a pecadora que lhe unge os pés (7,44-48). Misericordioso foi o bom samaritano da parábola (10,29-37). O capitulo 15 é uma seqüência de parábolas de misericórdia: a ovelha perdida (15,4-7), a dracma perdida (15, 8-10), o filho pródigo (15, 11-31);
  2. Evangelho dos pobres e marginalizados. Lucas escreve o evangelho dos pobres e marginalizados, dos pecadores e perdidos (4,18-19.40; 7,22-23). O perdão de Deus transforma as pessoas em fonte de generosidade. Sobre essa convicção está fundada a mensagem econômica e social de Lucas. Para seguir Jesus é preciso distribuir seus bens aos pobres (12,13-21.33-34; 19,8-9). A busca do Reino e sua justiça satisfará a todas as necessidades de sobrevivência (12,22-31). É necessário dar a própria vida como dom para os outros (14,26.33). Num mundo onde existe pobreza, a riqueza é uma iniqüidade (6, 20-26; 18,23-30). No banquete do Reino, serão os pobres os verdadeiros convivas (14,13-14.21-24);
  1. Evangelho da valorização da mulher. Em Lucas, Jesus dá grande atenção às mulheres (7,11-17.36-50; 8,1-3.43-56; 13,10-17). Maria é ‘cheia de graça’ (1,28) e Isabel ‘repleta do Espírito Santo’ (1,41). Há mulheres que ‘muito amam’ (7,47), que são ‘discípulas’ (8,1-3; 23, 49.55), ‘filhas de Abraão’ (13,16) e comparáveis ao próprio Pai do céus (13,21; 15,8-10). Em pleno caminho do calvário, Jesus se mostra atento às mulheres (23,27-31).
  1. Evangelho do ‘caminho’. O discípulo traz exigências radicas porque é o seguimento de Jesus no caminho da Galiléia a Jerusalém e na via dolorosa da Paixão e Morte que será coroada pela Ressurreição e desembocará na Missão. Nesta caminhada, são fundamentais a oração (11,1-13), a prática da misericórdia 910,29-37; 15, 4-32), a renúncia e o despojamento (9, 57-62; 14,25-27.33; 18, 28-30).

Bibliografia:

Lima, Pedro Vasconcelos. A Boa Notícia Segundo a Comunidade de Lucas. A Palavra na Vida 123/124. São Leopoldo-RS. Cebi,1998.

Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos. Roteiros para Reflexão VIII. São Leopoldo-RS. Cebi,1999.

Hoje a Salvação entra nesta Casa. Evangelho de Lucas. CNBB. São Paulo-SP. Paulinas. 1997.

Deixe uma resposta