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Evangelho de João: O Discípulo Amado

Eis umas linhas sobre o evangelho de João para nos ajudar na sua leitura. Boa leitura.sjoaoevangelista

  1. João, o discípulo amado

            João, é conhecido como filho de Zebedeu, o pescador. Ele, tem também um irmão, Tiago. Ambos fazem parte do grupo dos Doze (Cf. Mt 10,2; Mc 3,17; Lc 6,14; At 1.13). Mc 3,17 acrescenta que os dois irmãos receberam de Jesus o nome de ‘Boanerges’, isto é “filhos do trovão”. Independente de seu significado, esse nome certamente não sugere um comportamento passivo e contemplativo. Tinham personalidades fortes.

            João e Tiago foram chamados a seguir Jesus quando se encontravam no barco de pesca do pai (Mt 4,21s; Mc 1,9ss), aí começaram sua vocação no seguimento a Jesus. Pedro, Tiago e João são chamados juntos a acompanharem Jesus quando o resto dos Doze é deixado para trás: na transfiguração (Mt 17,1;Mc 9,2; Lc 9,28); na cura da sogra de Pedro (Mc 1,29); e da filha de Jairo (Mc 5,37; Lc 8,51); na pergunta sobre a época da parusia (Mc 13,3); no Getsêmani (Mt 26,37; Mc 14,33).

Esses dados sugerem que os três estavam mais intimamente unidos a Jesus do que o resto dos Doze. João e Pedro foram enviados para a preparação da páscoa (Lc 22,8). Tiago e João pedem para sentar junto a Jesus em dois tronos, ocasião em que receberam uma censura de Jesus e o anuncio de que terão de beber o seu cálice (Mt 20,20-28; Mc 10,35-45). João se queixou a propósito de um exorcismo não autorizado pelo Senhor (Mc 9,38; Lc 9,49). Juntamente com Tiago, pediu que os samaritanos que não se havia mostrado hospitaleiro fossem consumidos pelo “fogo do céu”. Ainda, como podemos ver no texto do evangelho em 13,23; 19,26; 20,2s; 21,7.2024, quando João é chamando de “o discípulo que Jesus amava” e com o discípulo cujo nome não é citado em 1,40; 18,15s.

            João aparece junto com Pedro na cura do aleijado (At 3,1-11) e no interrogatório diante do Sinédrio (At 4,13.19); junto com Pedro, João concedia o Espírito Santo aos discípulos batizados em Samaria (At 8,14). Paulo cita João juntamente com Pedro e Tiago entre as colunas da Igreja de Jerusalém (Gl 2,9).

            Como podemos perceber, João e Tiago eram apóstolos que tinham forte personalidade, mas que foram sendo educados pelo Senhor, a serviço do reino.

  1. O contexto de Jo

            Quando o apóstolo e evangelista João juntamente com seus colaboradores começaram a escrever o seu evangelho na cidade de Éfeso, as comunidades cristãs estavam passando por dificuldades de todo tipo: Havia perseguição dos governadores romanos; marginalização por parte dos judeus sobre os  cristãos; revolta de alguns cristãos contra os judeus; discriminação entre os próprios cristãos por uns serem de origem helênica; Havia também os que negavam Jesus como o Messias (1Jo 2,1-4.22; Jo 5,16-18; 7,1; 10,31-39; 19,7); havia os que desprezavam a natureza humana de Jesus e apegava-se a sua natureza divina (2Jo7s; Jo 1,14; 6,51-58; 19,33s); havia os sábios nos conhecimentos esotéricos (1Jo 2,20.27; 4,4-9s); e os que se apossavam do poder na comunidade e atrapalhavam a pregação , desprezando até os conselhos e orientações do próprio apóstolo e evangelista João com sua equipe (3Jo 9-10).

            Além dessas dificuldades havia ainda, aqueles que acreditavam ser João Batista, o messias (1, 6-8.15-39); e aqueles que pensavam está na luz mas sua prática era marcada pelas trevas; e aqueles outros que tinham dificuldade de aceitar um Deus encarnado na história.

Para todos esses, João mostra Jesus como a Luz (1,5.9s); como o Verbo encarnado (1,1-5.9-14); como Pão da Vida (6); como Caminho, Verdade, Vida; como sendo a presença de Deus no meio de nós por meio do Filho. Mostra a Glória de Deus agindo na comunidade, por meio dos discípulos, apóstolos, testemunhas de Jesus.

  1. Chave de leitura de Jo

            O evangelho de João costuma ser estudado e apresentado sob duas partes: a primeira como sendo o livro dos sinais; e a segunda como sendo o caminho da gloria, o momento da cruz. Assim temos a seguinte chave de leitura.

  • 1,1-18: Introdução: a palavra armou sua tenta entre nós;
  • 1,19-12,50: O livro dos sinais;
  • 13,1-20,29: O livro da glória de Jesus:
  • 20,30-31: Conclusão;
  • 21: Apêndice.

No livro dos sinais nos é apresentado sete sinais  que nos revela o significado da pessoa e obra de Jesus. Também cada um dos sinais revelam o cotidiano das comunidade de João. Eis, os sete sinais:

  • O vinho novo no casamento: 2,1-11;
  • A cura do filho do funcionário: 4,46-54;
  • A cura do paralítico: 5,1-9;
  • Pães e peixes para matar a fome: 6, 1-15:
  • O caminho sobre o mar: 6,16-21;
  • A cura do cego: 9,1-7;
  • Lazaro, volta à vida: 11,1-44.

O que costumeiramente nos evangelhos sinóticos são chamados de “milagres”, a comunidade de João prefere chamar de “sinais” pelo simples fato de que não o milagre em si que deve chamar a atenção mas o seu significado. Eles revelam algo mais! E isso, não é todos que compreendem. Os sinais apontam para uma realidade bem maior e misteriosa, algo mais profundo.

No livro da glória de Jesus, segunda parte do evangelho de João (13,1-20,29), não há sinais e nem confronto de Jesus com seus adversários. Ao contrário, afora o momento da prisão, condenação e morte de Jesus, ele está cercado de seus discípulos e dar-lhes orientações. Essas orientações ajudam as comunidades joaninas a se afirmarem como seguidoras de Jesus, construindo seu dia a dia e sua identidade.

O livro da glória de Jesus tem duas partes ou momentos fortes:

  1. a) Em João 13-17 – narra-se a ceia de Jesus com os discípulos. Aí ele dá instruções e orientações, para serem fieis discípulos seus;
  2. b) Em João 18-20,29 – temos a narração da prisão, condenação, morte e ressurreição de Jesus.

            Nesse segunda parte, temos Jesus num ambiente de comensalidade, dando aos discípulos aquilo que o distinguirá dos outros e os tornará vinculado ao mestre, o grande mandamento do amor. Em outras palavras: a solidariedade e a fraternidade são os grandes distintivos do ministério, do serviço, e nos cura de dois males que é o cargo, a função; e o exercício do poder para mandar, dominar e oprimir.

            Entendendo assim, a vida e o vinculo com o mestre, temos o momento da “hora” onde Jesus assume a cruz e se doa para que todos tenham vida, porque ele acredita que a vida detém a palavra final.

            No capitulo 21, temos um acréscimo da comunidade mediante a precedência do ministério na comunidade. A questão de fundo é: a quem reconhecer na precedência do pastoreio, Pedro (ministério) ou o Discípulo amando (carisma)? A resposta conforme o testemunho do texto é: Pedro, porque mesmo sendo frágil possui o ato de fé que dá testemunho mesmo em meio as fraquezas; o Discípulo Amado – traz todo potencial dos dons de Deus, esses dons são colocados a serviços, porém não cabe ao dom a direção da comunidade, porque lhe é próprio o dinamismo da mesma, enquanto o ministério precisa em seu interior fazer dar passos e enxergar mais longe, levando a mesma a viver o carisma de modo gracioso e corajoso. Ambos são a riqueza da comunidade enquanto células vivas, carregadoras de um potencial transformador.

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