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Evangelho de João: místico e espiritual.

sjoaoevangelista            Este ano de 2015 a Igreja propõe para o Mês da Bíblia (Setembro) a leitura, meditação e estudo do evangelho de João. O pano de fundo para esta proposta de leitura é o discipulado e a missão na perspectiva do Projeto de Evangelização “O Brasil na missão continental” – projeto esse que nos põe toda a Igreja em estado de missão segundo a realidade e contexto atual onde a mesma está inserida.

Diante das intempéries da sociedade e um “Jesus” água com açúcar que tem muito por aí, como Igreja, somos interpelados a dar testemunho de Jesus de Nazaré, real, claro e preciso, sem muitos rodeios.  E quem melhor, poderia nos ajudar nisso, senão as Escrituras? E seguindo o ciclo litúrgico e uma dinâmica própria da vida da Igreja, o evangelho de João para este ano, nos ajuda a “ver” através dos “sinais” e da “glória” a verdadeira face de Jesus vivo e ressuscitado. Ele nos é a Luz, o Vinho novo, a Vida, a Palavra, o Alimento, o Caminho, a Verdade… João em seu evangelho nos propõe um caminho, um caminho de iniciação para “ver”, “crer” e receber a luz que ilumina todo homem e que lhe dá o poder de se  tornar filho de Deus (1, 12).

E quem é o evangelista? Do evangelista, muito se falou, se duvidou, se questionou em séculos passados. Mas, hoje é senso comum que o autor do quarto evangelho é o próprio João apostolo, juntamente com algumas mãos anônimas de seu círculo próximo. Seu escrito passou por várias fases e possivelmente se arrisca uma data entre os anos 90 a 100 da Era Comum, escrito em algum lugar da Síria e da Ásia Menor (Éfeso) ou quem sabe em alguma outra parte do norte da Palestina[1].

 O evangelho de João foi durante muito tempo considerado um evangelho místico e espiritual desde as origens cristã, inclusive, por grupos gnósticos que se apoiaram em sua leitura para ilustrar e defender suas ideias sobre Jesus e o cristianismo nascente. Muitos desses grupos foram considerados heréticos. Mas, no que diz respeito ao evangelho de João a comunidade cristã autêntica saiu em defesa do evangelista e, desde então, o evangelho de João é tido como inspirado e canônico – isto é, válido como norma de fé.

            Então, se João foi alvo de muitas controversas, pelo menos, para a comunidade cristã, ele só tem a acrescentar aos outros evangelistas, quando se trata de Jesus e sua ação no mundo.

            O Jesus de João é o mesmo Jesus de Nazaré proclamado, anunciado e testemunhado pelos outros evangelistas, contudo, João nos mostra “um outro olhar” com certos aspectos que lhe são próprios. Não é um “outro Jesus” como inclusive durante séculos muitos especularam, não. É Jesus mesmo com um olhar mais digamos, “refinado”. Mas o que se pode dizer de sua mística e sua essência espiritual?

            João em seu escrito é místico e espiritual. Seu Jesus é profundamente humano e ao mesmo tempo “esconde” um mistério cuja “revelação” é possível aos que tem fé nele, e adere a sua obra, como obra do Pai mediante ação do Espírito Santo. Aliás, sobre seu misticismo e o ser espiritual nos diz Johan Konings, grande teólogo biblista: “Já o Quarto Evangelho ser um evangelho espiritual, apontamos acima o que isso significa: um evangelho escrito e a ser lido à luz do Espírito que animou Jesus e que continua animando sua comunidade. Não nos leva alturas etéreas, mas nos confronta com o Espírito de Deus na vida e na história, com a realidade decisiva da opção da fé por Jesus, na comunidade, e com o mandamento do amor fraterno, pelo qual o Pai e o Filho estabelecem morada no meio de nós (Jo 14,23)[…] O Quarto Evangelho é místico, sim, mas no sentido de nos entrosar na comunidade de fé e de amor fraterno. Se não nos levar a amar os irmãos “com atos e em verdade” (1Jo 3,16-17) a exemplo de Cristo, sua leitura é inoperante, tempo perdido.” [2]

            Ler, pois, o quarto evangelho com esse olhar é fascinante, porque o lemos com os “pés no chão”, com o “olhar na história” e às mãos tocando em algo bem concreto: Jesus, homem, profundamente humano, enraizado na história e na cultura do seu povo; Jesus, divino, Deus, Deus mesmo no meio de nós, a Palavra (Logos) feito carne e que habita entre nós, porém, diferente de nós; não é pois, isso o mistério da encarnação? A palavra feito carne? A glória do mundo? E os “sinais” e a “glória” não nos aponta para Ele?

            Eis, pois, o evangelho de João. Boa leitura orante para você.

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[1] Mês da Bíblia 2015 – Discípulos e missionários a partir do Evangelho de João. São Paulo: Paulinas, 2015.

[2] Konings, Johan. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. Edições Loyola. São Paulo-SP, 2005.Pág, 63.

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