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Olhar Sinótico: Transfiguração

Por: Sebastião Catequista

O texto da transfiguração do Senhor na tradição de Mateus está ligado aos eventos anteriores, onde em diálogo com os discípulos, Jesus lhe fala das condições do seguimento, e do anúncio da paixão, o primeiro anúncio (Mt 16,21-23). Desse modo, a perícope estudada já de antemão dar uma ideia da mensagem: revelação de Jesus como o enviado de Deus e superador das tradições (lei e profecia) judaicas contemporânea ao mesmo tempo que cumpre o espirito da mesma. Então, o que vemos em Mateus?

Mateus, já no início, assim com Marcos e Lucas, liga esta perícope a anterior (cf. Mt 16, 13s; Mc 8, 27s; Lc 9, 10.18.28). Ele (v. 1a) e Marcos (9, 2a) colocam o enredo após seis dias, e Lucas após oito (9, 28a) dias, e relata o motivo: Jesus subiu a montanha para rezar. Lucas é o único evangelista que “exagera” a quantidade de vezes quando o tema é a oração. Já Mt e Mc omite esse detalhe da oração deixando entre aberto o motivo da ida a montanha. Entretanto, por outro lado, o motivo é obvio: se revelar aos discípulos. Pois o texto está em continuidade com os temas (seguimento, perseguição, fidelidade, martírio…) abordados anteriormente.

Todos são unanimes em fala do estado de Jesus e de suas roupas. Mateus remetendo ao brilho do sol/ luz; Marcos não usa a simbologia do sol/luz, mas fala de cor e de lavadeira. Lucas fala de brilho (luz) e de cor (branca). Tal descrição nos remete ao mundo divino, sagrado. Jesus é confirmado em sua missão pelo Pai. Mas, também, não seria aqui esses símbolos uma alusão ao Senhor ressuscitado? Nesse caso os autores estão falando mais do momento presente de suas comunidades do que propriamente do fato em si a muito tempo acontecido.

No verso seguinte duas personagens são comuns aos evangelistas Moisés (Lei) e Elias (Profecia).

A reação de Pedro em Mateus e dos demais discípulos foram de serviço (fazer três tendas) (v. 4b) e de medo quando ouviram a voz (v. 6), de modo que “caíram o rosto por terra” (v. 6b). Exagero do evangelista? Não. Há motivos para isso. Poderíamos arriscar a formação religiosa judaica dos ouvintes (temer a Deus…), ou dá ao enredo mais força de persuasão (?) por entender que os discípulos, estão diante do inaudito: Deus que se revela em Jesus na montanha. Como no Êxodo (Ex 33-34) que se revelou ao povo por meio de Moisés e lhe deu a lei.  Marcos diz apenas que a atitude de Pedro foi de medo (9, 6) e que quando olharam não viram mais ninguém (9,7). O evangelista é muito simplista. Não faz muito teologismo apesar de fazer teologia. Lucas dá ênfases que os discípulos dormiam (9,32) e que quando acordaram vira Jesus, Moisés e Elias na “glória” (9,32) de modo que sugeriu armar três tendas. E Lucas acrescenta que Pedro agia com medo e sem saber o que estava dizendo (9,33) de modo que no decorrer da cena e ao final, após ouvir a voz, silenciaram completamente (9,36).

Só Lucas fala da “Glória” que Jesus alcançará quando do evento escatológico da ressurreição depois de passar pela cruz; aqui ele está na gloria como consequência do fato da transfiguração. Ou será que o evangelista está fazendo “superposição” de imagem para seus leitores falando da glória do crucificado ressuscitado, dando assim, uma catequese para seus ouvintes, suscitando a fé, e mostrando que Jesus de Nazaré é o mesmo que foi ressuscitado e vive em sua igreja?

E o silêncio? Em Mateus v.9 Jesus mesmo dá a ordem de nada contar até que ele ressuscite. É claro que o autor pôs Jesus dizendo assim, porque o texto foi escrito após os eventos quando já acontecido e retrata a fé da comunidade. Entretanto, há a ordem de Jesus para o silencio por motivos óbvios. Marcos também age da mesma forma, lembrando que, Mateus usa o texto de Marcos, e Lucas diferentemente não relata que Jesus ordenou o silencio sobre os fatos, mas os discípulos mesmo é que silenciaram sobre os fatos. E no verso seguinte (9,37) por curiosidade, ao contrário de Mateus e Marcos, Lucas dá uma indicação de tempo para o evento: passaram de um dia para o outro, na montanha.

Ainda falando de Mateus, ele fala de “uma nuvem luminosa” que “cobriu com sua sombra” (v. 5). Tão logo passado o fenômeno, Jesus os tranquilizou e erguendo os olhos não viram mais ninguém (v. 7-8).  Estavam perplexos. Ao descer da montanha Jesus adverte para não contar o ocorrido (Porque?) e daí se segue um diálogo deles com Jesus sobre João Batista (v. 10-13; Ml 3,23-24) e o Messias.

O texto é claro em sua teologia: a cena da transfiguração está mostrando quem é Jesus e quais as consequências de sua opção. Jesus se insere no movimento da profecia que é sustentado pela Aliança concretizada na Lei (Moisés). Contudo, a Lei é letra, e sua ótica não contempla o dinamismo da profecia (Elias). Ambas concorrem para o bem do Reino inaugurado por Jesus, Ele é maior e as supera na perfeição. Quanto ao “temor” dos discípulos pode indicar, por exemplo, o medo da comunidade frente as perseguições a mesma por aderir a fé no Senhor que superou as tradições legalistas judaica e o imperialismo romano.

Quanto as personagens de Moisés e Elias no texto podem indicar por exemplo, o conflito entre os seguidores de Jesus e os judaizantes que valorizam as tradições bíblicas mas negam a Jesus, relativizando sua obra e seu messianismo. Jesus está em continuidade com a história do seu povo no Primeiro Testamento, de modo que assumi-la é assumir a cruz.

Também aqui podemos fazer uma releitura de alguns textos paralelos na ótica do Êxodo: A nuvem luminosa (cf. Ex 13,20-22; 33, 7-11a; 40,34-38; Nm 9, 15-23); a sombra do Altíssimo e a tenda da reunião (cf.  Sl 91,1; Nm 7, 89s), a montanha da manifestação de Deus (cf. Ex 19,16-20), etc.

            E a voz? É comum aos três sinóticos o eco da voz (Mt 17, 5; Mc 9 7; Lc 9,35). Com poucas diferenças, cada evangelista dá ênfases a alguns aspectos: Mateus acrescenta “que muito me agrada”; Marcos nada acrescenta; e Lucas diz “Este é o meu filho, o escolhido”.

            No geral, essa perícope nos traz como mensagem que Jesus é continuador da voz profética, realizador da aliança, maior que João Batista e o escolhido, amado de Deus, enviado para proclamar o reino que já está presente agindo nele e por meio dele com suas ações. Também, esse texto retrata a situação de conflitos existentes no interior da comunidade cristã, bem como, com aqueles que se opõe a ela. Por outro lado, o texto também mostra, que Jesus se revela ao núcleo mais íntimo dos discípulos (Pedro, Tiago e João), de modo que podemos dizer que a estes o Senhor se mostra como é e que apesar de nada entender, mais tarde compreenderão o sentido de tal revelação.

            O enredo dentro de cada “pauta” dos evangelistas segue uma sequência cuja ideia é justamente afirmar e revelar que Jesus Nazaré é o enviado de Deus. Ele é “autorizado” pela Lei e pela Profecia e confirmado pelo Pai para a missão a ele destinado a saber, o reino.

            A perícope da transfiguração também quer mostrar que Jesus assumiu a cruz até as últimas consequências, que por meio dela, ele receberá a glória. E esse compromisso com a cruz é assumir a Lei (Dt 18,15) e a Profecia (Is 42,1s) em sua plenitude, superando o legalismo e denunciando os mecanismos que impedem de o Reino acontecer. Como esse texto está entre o primeiro (Mt 16,21-23) e o segundo anuncio da paixão (Mt 17,22-23), quer ser para os discípulos e a comunidade cristã uma alerta para discernir quem é Jesus, qual a sua missão e as consequências para quem o segue radicalmente.

Bibliografia consultada

Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2016

– Caminhando com Jesus – Círculos Bíblicos do Evangelho de Marcos (2ª parte – Mc 8,22-16,20) Mesters, Carlos. Lopes, Mercedes. São Leopoldo, Cebi, 2003

Ele está no meio de nós – o Semeador do Reino. O Evangelho segundo Mateus. São Paulo: Paulinas,1998

– O avesso é o lado certo – Círculos Bíblicos sobre o Evangelho de Lucas. Mesters, Carlos. Lopes, Mercedes. São Leopoldo, Cebi,1998. Paulinas, 1998.

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