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Primeira Carta aos Tessalonicenses: Contexto e leitura

Ser cristão na cidade grande – um desafio hoje

Introdução    

A primeira carta de Paulo aos Tessalonicenses é o primeiro escrito do Segundo Testamento, escrita por volta do ano 51 depois de Cristo. É a primeira carta autêntica das sete escritas pelo próprio Paulo (as outras são: Romanos, Gálatas, 1 e 2 Coríntios, Filêmon e Filipenses). Nesta carta, o autor expressa sua alegria pela perseverança da comunidade, que é modelo para as igrejas da região Macedônia, bem como responde aos seus questionamentos quanto a parusia (a volta de Jesus) e a exorta na santidade em meio aos problemas enfrentados naquela ocasião.

Na carta o apóstolo aborda temas importantes da fé cristã: o papel da Trindade; a ética/moral cristã numa sociedade pagã; o culto a Deus; a dignidade do trabalho; as relações comunitárias; o papel da liderança; as virtudes teologais (fé, esperança e caridade); a ressurreição; a parusia; e a relação com os mortos (escatologia).

Em que contexto foi escrita a carta? O que estava acontecendo?

Nosso texto é uma provocação para você, coisa pouca, é verdade, mas é para que você possa ler, conhecer, e ir em busca de aprofundar essa palavra que por entrelinhas, nos revela a Palavra de Deus.

O contexto da cidade de Tessalônica

Tessalônica era a cidade mais importante da região da Macedônia ao norte da Grécia atual. Fundada em 315 a.C, por Cassandro, general de Alexandre Magno, conquistada em 168 a.C, pelos romanos, tornou-se a capital da província romana da Macedônia. Aí morava o procônsul romano. Tendo obtido do imperador Augusto o privilégio de cidade livre, era administrada por um conselho eleito pela assembleia do povo (cf. At 17,5) e presidida por magistrados (cf. At 17,6-8). Era um importante porto marítimo com comércio intenso.

Sua sociedade era muito heterogênea. Havia uma elite dominante formada por lideranças políticas e militares, e por uma minoria que detinha e controlavam o comercio e os meios de produção. Sua população compreendia trabalhadores manuais, braçais carregadores do porto, escravos, comerciantes ambulantes, profissionais itinerantes vindos da Itália e da Ásia Menor.

O trabalho a partir da visão elite, era visto como algo negativo próprio dos escravos e do povo pobre, enquanto que a elite, deveria viver do ócio. Essa ideologia mantinha a exploração dos trabalhadores e do sistema de apadrinhamento pelos ricos benfeitores (algo parecido como o que havia no nordeste brasileiro do século passado – no período do coronelismo)

Religiosamente, havia uma colônia de judeus; grupos de prosélitos (convertidos ao judaísmo) e grupos adoradores das divindades local e advinda de várias partes do império.

Na região macedônica, como Tessalônica, é muito forte o culto aos deuses gregos Dionísio, Isis, Sarápias, Artêmis –  “ídolos” aos quais as cidades tinham como “harmonia” da sociedade e de sua organização social. A eles, o culto era dado sobretudo com festas, danças, refeições comunitárias e orgias sexuais. Algo muito natural para a mentalidade da época.

Nesse contexto, Paulo se apresenta aos tessalonicenses com sua mensagem cristã.

A comunidade cristã de Tessalônica

Paulo chega aí vindo de Filipos (At 17,1-15) pelo ano de 50/51 em sua segunda viagem missionária com Silas (também chamado Silvano). Em Tessalônica prega aos judeus (At 17,1) e obtém a adesão também de gregos adoradores de Deus e mulheres da alta sociedade (At 16,14; 17,4.13). Os cristãos aí convertidos viviam num ambiente politeísta (1,9-10), marcado por mitologias e enfrentavam oposição dos judeus. Justamente por causa dessa oposição que Paulo e Silas foram forçados a fugir para Beréia e depois para Atenas, de onde enviou Timóteo para saber notícias da comunidade de Tessalônica.

A volta de Timóteo provocou grande alegria, e Paulo escreve de Corinto sua carta para os cristãos de Tessalônica. Assim, nasce o primeiro escrito do Novo Testamento.

A comunidade enfrenta alguns conflitos externos e internos aos quais o apóstolo dá claras orientações. Que a comunidade se aparta dos costumes pagãos como a pratica do sexo ilegítima, e que o casal não se deixe levar pelas paixões (1Fl 4,3), sendo um para o outro motivo de santidade e modelo; Paulo elogia a pratica fraterna da caridade entre os membros da comunidade (1Fl 4,9) e os exorta a crescer nessa prática; que a comunidade viva vida simples, com lealdade, ocupando-se do trabalho para seu próprio sustento (1Fl 4, 11-12); e lhes instrui sobre a vida dos que morreram e sua ressurreição, bem como o arrebatamento dos vivos pela ocasião da segunda vinda de Jesus de modo glorioso (1Fl 4,13-18). O apostolo exorta a viver na vigilância tendo como inspiração a trilogia fé-amor-esperança numa sociedade pagã sendo luz para ela (1Fl 5,4-11). Exorta ainda a serem generosos e zelosos com as lideranças da comunidade (1Fl 5,12-13); a serem zelosos com os pobres, a encorajar os desanimados, a corrigir os preguiçosos, a fazerem o bem, e orar sempre e sem cessar, inclusive, sendo fieis leitores-ouvintes-praticantes das Escrituras (1Fl 5,14-22). Dessa forma, Paulo demonstra como deve ser a vida de um cristão e da comunidade cristã. Algo que se formos olhar, é bem típico do Evangelho de Jesus e de sua prática.

Conclusão

Os cristãos da comunidade de Tessalônica é um modelo para todas as comunidades de todos os tempos, não é por acaso que no início, o apostolo a saúda com alegria e graça (1Ts 1,2-3. 6.). Pois, em meio a uma cultura pagã um grupo de pessoas aceitaram ser cristãos (“vos convertestes dos ídolos a Deus, para servirdes ao Deus vivo e verdadeiro”), fazer a diferença mesmo correndo perigo da perseguição e morte, e aceitar com coragem a graça do seguimento a Jesus (1Fl 1,9s) que nos livra da irá futura.

A carta nos fala muito para os dias de hoje. Cada um, cada uma há de fazer sua leitura orante e a partir do seu contexto vigente, se deixar provocar pelo texto e se questionar como está sendo tanto pessoalmente, como comunitariamente, nosso ser e agir cristão no mundo atual.

A carta, também nos mostra algumas temas relevante quanto a teologia paulina e a doutrina cristã: a ação e o lugar da Trindade na vida da Igreja; as virtudes teologais (fé, esperança e caridade); o plano de Deus com a encarnação, redenção, glorificação de Jesus e a parusia; o agir cristão enquanto uma postura ética-moral numa civilização paganizada; a oração pessoal e litúrgica; a alegria de ser cristãos; a dignidade do trabalho; a opção pelos pobres como forma de servir/seguir e da testemunho do ser cristão no seguimento de Jesus; a vigilância cristã, entre outros. A carta é muito rica e os temas tratados não são meramente conceitos, mas fala das coisas práticas do dia-a-dia na vida das pessoas e da comunidade.

Enfim, a Primeira Carta aos Tessalonicenses é o primeiro documento do Novo Testamento que nos dá uma ideia da vida cristã e do essencial da mesma no primeiro século do cristianismo e nos coloca diante de questões que define nossa identidade no mundo atual, mesmo estando em contextos tão diferentes e separados por séculos, mostrando para nós como a Palavra de Deus é sempre atual.

Fontes Consultadas:

BOHN, Ildo Gass. Uma Introdução a Bíblia – as comunidades cristãs da primeira geração. São Paulo: Paulus, 2006.

SAB, Serviço de Animação Bíblica. Mês da Bíblia 2017 – Texto para o Povo. São Paulo: Paulinas, 2017.

CARREZ, Maurice (et al). As Cartas de Paulo, Tiago, Pedro e Judas.  São Paulo: Paulinas, 1987.

COMBLIN, José. Atos dos Apóstolos – Vol. II: 13-28 – Comentário Bíblico. Petrópolis: Vozes, 1989.

STAMBAUGH, John E (et al). O Novo Testamento em seu ambiente social. São Paulo: Paulus, 2008

CASALEGNO, Alberto. Paulo o evangelho do amor fiel de Deus. São Paulo: Loyola, 2001.

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