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Período dos Juízes e Reis: O projeto igualitário das tribos e o início da monarquia

juizesA formação das tribos

            A formação de Israel como povo, nasceu da experiência do Êxodo, seguida da posse da terra de Canaã. Essa experiência foi fruto de uma parceria entre Javé libertador e o povo oprimido. Ele fez uma Aliança com o povo: “Eu serei o teu Deus e tu serás o meu povo”. Na grande Assembléia de Siquém (Js 24) o povo celebra e assume a Aliança de Javé, fazendo memória do seu passado, quando Moisés conduzia com os anciãos, as mulheres e Josué o processo da libertação realizada por Javé. Em Siquém as tribos (12 Comunidades) assumiram pra valer o projeto igualitário de Javé e segundo o livro de Josué, se organizaram na Terra Prometida, que corre leite e mel, da seguinte forma: Na Transjordânia, se instalaram as tribos de Rúben, Gad e parte da tribo de Manasses (Cf. Js 13,8-33). Na Cisjordânia, de sul a norte, temos as tribos de Simeão, Judá, Dã, que mais tarde imigrou para o norte (Cf. Jz 18), Benjamim, Efraim e parte de Manasses, Issacar, Zabulon, Aser e Neftali (Cf. Js 14-19). Confira o mapa das 12 tribos na sua Bíblia.

            Cada tribo tinha o seu jeito de viver, celebrar e cultuar a Javé, fazendo memória da ação do Deus libertador na vida do povo.  Os juízes eram homens e mulheres que cuidavam de zelar pela e pela defesa do povo. Os levitas eram encarregados do culto e da transmissão das tradições. Cada tribo era formada por clãs (grupo de 50 famílias próximas e aparentadas) que eram coordenadas pelos chefes de famílias. Havia o Conselho das Tribos onde todas estavam representadas. O que unia as tribos eram a fé em Javé e a Aliança do Deus libertador do Êxodo.

            Mas como viviam as tribos dentro de Canaã, terra dos cananeus e filisteus e outros povos menores? Quais eram as características do sistema cananeu e egípcio e quais as características do sistema das tribos?

Sistema Egípcio e Cananeu

  • Sociedade desigual (rei, funcionário, notáveis, soldados, camponeses e artesãos) Js 11-12
  • Exploração da força de trabalho (a terra e a produção pertencem ao rei) Ex 5,6-18
  • Poder centralizado no rei (o rei é dono de tudo e quem decide tudo) 1Sm 8,10-17
  • Exército estável e mercenário (garante o poder do rei e repreende o povo) 1Sm 8,11-12
  • As leis defendem os interesses do rei e do Estado. Ex 1,8-10.22; 5,06-9
  • Vários deuses como, Baal, Astarte, Asera. Js 24,14-15
  • Centralização do culto no mito. 1Sm 5; 1Rs 11,1-8
  • Sacerdotes e sacerdotisas a serviço do sistema. Gn 47, 20-22

Sistema Tribal

  • Sociedade igualitária organizada a partir da família, patriarcas, clãs, tribos. Nm 1,1-23,34
  • Autonomia produtiva. As terras é divididas de acordo com as famílias e as necessidades. É proibido acumular (Cf. Ex 16), o povo celebra o ano jubilar e o ano sabático. Lv 25; Dt 15,1-8
  • Poder participativo. As decisões são tomadas pelos anciãos, e as grandes decisões em assembléias do povo. Ex 18,13-27; Nm 11,16-25; Js 24
  • Exército ocasional. Só para defender as tribos e quando há inimigos comuns. Depois se desfaz o exército. Jz 4, 6-10.
  • As leis defendem a igualdade e a liberdade. Ex 20,2-17; Dt 5, 6-21.
  • Fé no único Deus libertador, Javé. Ex 3, 1-15; 22,20-26; Dt 24, 6-22.
  • Culto centralizado para celebrar a vida e a história. EX 19,1-18; Dt 26,1-11; Js 24; Jz 17.
  • Sacerdotes-levitas a serviço do povo. Não possui terras e vivem da caridade alheia. Nm 18, 20; 35, 1-8; Dt 12,12.18-19; 14, 27; Js 13,14.

Mas entre as tribos esse sistema igualitário só durou 200 anos. Muitos fatores contribuíram para que a sociedade igualitária não desse certo. O resultado foi viver como os povos visinhos: o sistema dos reis. Quais os fatores que contribuíram para que não desse certo a sociedade igualitária?

Causas externas

  • Os reis das redondezas queriam dominar Israel e cobrar impostos. Jz 3,8.12-14; 4,1-2; 6, 1-6; 10,6-9.
  • A maior ameaça era os filisteus que eram contra as tribos porque seu jeito de viver denunciava as injustiças deles na sociedade.1Sm 4-7; 16-17.
  • A modernidade nas cidades dos reis: tinha ferramenta de ferro, carros puxados a cavalo, etc. 1Sm 13, 19-23. Assim os reis monopolizavam o povo e o comercio.

Causa internas

  • Corrupção das lideranças. 1Sm 2,12-17; 8,1-3.
  • Desigualdades sociais. As diferenças entre os clãs e as tribos foram aumentando, através da acumulação das terras, técnicas modernas de aragem das terras e disputas das lideranças. Jz 8, 22-27; 9; 17,6; 18,1; 21, 25.
  • Pobreza do povo nas tribos. Rt 2

Diante dessa situação, alguns juízes tentaram viver conforme o sistema dos reis, a realeza. Vejam os seguintes textos: Jz 8, 22-23 (Gedeão) e 9,1-17ss (Abimaleque), mas não havia tempo e forças favorável como podemos perceber no texto.  Daí todos faziam o que achava melhor, conforme foi dito acima. Confira Jz 21,25. Tudo isso leva o povo a pedir um rei. A pedir o sistema dos reis. Isso era contrário ao projeto de liberdade de Javé e sua aliança. Porém o povo estava obstinado e Javé aceitou a vontade do povo. Confira os textos Dt 17, 14-20 e 1Sm 8.

O que faz o rei? Qual o direito do povo e do rei? Quem pede um rei? Quem deveria ser o rei?

Diante dessa situação nasce no meio do povo o sistema dos reis, mas Javé também providencia outra forma de orientar o povo e conduzi-los segundo o seu projeto: os profetas.

Profetas eram pessoas enviadas por Deus para chamar a atenção do rei e do povo, para a Aliança. Ele anunciava os “oráculos de Javé” e denunciava as injustiças dos reis e os pecados (quebra da aliança, idolatria, costumes) do povo. Chamava o povo para o caminho de Javé, conforme as orientações do próprio Javé.

O que faz um profeta? Leia Dt 18, 9-22 e compare com 1Sm 12. Veja ainda 2Sm 7, 1-17; 12, 1-15 e 1Rs 18,17-40.  Veja a ação do profeta.

            Durante o período dos juízes vemos a ação da profetisa Débora (Cf. Jz 4-5), de uma anônima (Cf. Jz 6,8) e a figura do ultimo juiz e primeiro profeta, Samuel (1Sm 3,20; 9,9; 2Cro 35,18). Primeiro no contexto do sistema dos reis.

            Durante o reino unido, é forte a presença de Samuel (1Sm 8-17s) no tempo de Saul; de Natã (2Sm 7,2s; 12,1; 1Rs 1, 11) e Gad (1Sm 22,5; 2Sm 24, 11s) no tempo de Davi. Natã ainda marca presença decisiva no início do reinado de Salomão.

            Observando o livro dos Salmos, percebemos que, o povo cantará os temas do êxodo, a aliança, a vida no deserto, a vida tribal  e a presença de Deus, bem como, a terra como dom de Javé e o templo como símbolo de Sua presença, no período do rei Salomão.  Porém e por outro lado, é no período do reino unido, principalmente entre Davi e Salomão, que o povo viverá a mesma situação de escravidão como viveu no Egito. Diferenciado apenas “pelos trabalhos forçados” sob “os chicotes dos capatazes”. O sonho da sociedade igualitária vivida pelas tribos aos poucos vai se desfazendo, como havia alertado o profeta Samuel (1Sm 8) e o povo vai se dividindo. Nasce outra realidade que será a divisão do reino e do povo.

Também os profetas posteriores, vêem nos temas do êxodo, da aliança, da vida no deserto e da vida tribal sua principal fonte de motivação para sua pregação junto ao povo. Pois, desse período, é marcante para o povo o amor de Javé e seu ato libertador. Daí, porque encontramos no trabalho dos profetas referências constante a esses temas. Tais temas constituem a “saga originária” de Israel como “Povo de Javé”, povo de Deus.

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