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Pentecostes: nascimento “oficial” da Igreja

pentecostes2A cada ano na liturgia de rito romano celebramos após cinquenta dias da páscoa a festa de pentecostes. Sua origem remonta às páginas do Primeiro Testamento, tem sua releitura no Segundo Testamento e nos recorda ainda agora nosso compromisso batismal e crismal com o Senhor, o crucificado vivente.

Pentecostes no Primeiro Testamento:

Pentecostes é uma palavra de origem grega cuja tradução é ‘cinquenta dias’. Pentecostes é no Primeiro Testamento a festa da Colheita (Ex, 23, 14s), também conhecida como festa das Semanas (Ex 34,22; Dt 16, 9-10). As comunidades judaicas celebravam a colheita dos frutos da terra. Era uma festa do povo do campo. Com o passar dos tempos, essa festa que acontecia sete semanas depois da páscoa, foi tomando novo sentido: passou a representar também a lembrança da promulgação da Lei no Sinai. Segundo o testemunho do Levítico esse dia é um dia santo, nele haverá uma convocação, uma assembleia santa (Lv 23, 21) e o povo fará festa em honra de Javé.

Pentecostes no Segundo Testamento:

No Segundo Testamento, Pentecostes está associado dentro do contexto da paixão e ressurreição de Jesus, com a criação “oficial” da Igreja. É Lucas, no livro dos Atos 2,1-41, que nos dá um relato cujo teor tem mais sabor teológico de que histórico. Ele nos diz que na festa das Semanas (Pentecostes) depois de cinquenta dias da páscoa judaica (e da ressurreição de Jesus), após Jesus ter sido elevado aos céus, nos enviou o Espírito Santo, fundando a nova comunidade dos eleitos, do novo povo da salvação escatológica.

É claro que, mais que um relato “histórico” fidedigno como a semelhança de uma reportagem ao vivo e a cores, o autor está nos contando uma realidade bem mais viva e cativante do ponto de vista da fé cristã. Pois, segundo os outros demais evangelistas, de modo particular João 20,22s, os discípulos receberam o Espirito Santo no mesmo dia da ressurreição e foram enviados em missão.

Porque Lucas narra os fatos assim?

Primeiro, porque ele quer mostrar aos seus ouvintes que as comunidades fundadas pelos apóstolos e demais seguidores, são uma obra do Espirito; diferentemente de outras narrativas, que inclusive, coloca o nascimento da Igreja como do lado aberto e chagado de Jesus na cruz. Lucas, está tentando dizer aos seus leitores e a nós que, Deus está através da festa das Semanas judaica, está, repito, está criando um novo povo, fazendo uma nova colheita.

Segundamente, o texto tem algumas nuances com significados bem definidos: a lista dos povos aí presente significa as regiões e povos pelos quais estão presente de algum modo o povo novo da salvação, e o evangelho de Jesus, em anos bem mais tarde; que comparando a língua do povo do Primeiro Testamento, que em toda a sua trajetória histórica só havia confusão (confusão de plano; confusão ideológica; confusão de objetivos) o novo povo do Segundo Testamento, tem compreensão de línguas, compreensão essa que nasce de uma só língua: o amor comprometido, oblativo e missionário.

Desse modo podemos dizer baseado em exegese e teologia assumida pela nossa Igreja, que, Pentecostes, mas que um fato histórico é um fato teológico com dados históricos de outra ordem.

Então houve ou não houve uma ‘descida do Espírito Santo’? Claro que houve, você dúvida? Veja os frutos nesses dois mil e doze anos de história da fé cristã. Entretanto, como houve para a primeira geração dos cristãos, também há, é verdade, para nós hoje. O mesmo Espirito que animou, dinamizou, criou, re-criou e inverteu a ordem das coisas nessa trajetória histórica está agindo hoje em nosso meio, nas comunidades e através das ações dos muitos irmãos e irmãs que estão na periferia do mundo ou dentro das comunidades, fazendo a “coisa” (o reino/vida) acontecer.

Por isso, mais que celebrar uma lembrança histórica, celebramos aqui e agora, a presença transformadora, libertadora, subversiva, dinâmica do Espírito que faz em nossos tempos Novo Pentecostes. E esse novo pentecostes é de ordem pessoal, comunitária e social no meio do povo, pois, o Espírito não é propriedade de um grupo, de uma pessoa ou de uma ideologia, mas sim de Deus e é Ele mesmo, Deus, e como Deus “habita os nossos corações” e não o sabemos de onde vem ou para onde vai. Sabemos apenas que Ele age, agiu no passado de nossos pais, age aqui e agora e agirá no futuro. Ele leva à cabo o projeto-missão de Jesus através dos batizados e batizadas.

Conclusão…

            Celebrar Pentecostes, é celebrar não o passado, mas fazendo memoria do passado e escutando o Espírito no presente, forjamos o futuro das gerações vindouras, cuja missão é dar continuidade a missão evangelizadora e transmitir em vasos de barros que somos, tesouros incalculáveis aos olhos e a ambição humana: o reino de Deus, até que chegue o tempo pleno.

            A cada ano, pois, celebremos a festa de Pentecostes, com esse sentir e olhar.

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