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Olhar Sinótico: Primeira Multiplicação dos Pães

Texto: Bíblia Pastoral Online

tabela da multiplicação

Por: Sebastião Catequista

Os evangelhos Sinóticos têm em comum o episódio da multiplicação dos pães. Segundo Mateus e Marcos, há em seus escritos dois relatos do mesmo fato (Mt 14, 13-21 e 15,32-39; e Mc 6,30-44 e 8,1-10), porém, com olhares e enfoques diferentes, conforme a teologia de cada evangelista e o contexto eclesiológico de seus ouvintes e destinatários. Aqui, tecemos algumas notas de reflexão sobre o que comumente é conhecido como “primeira multiplicação dos pães”.

            Em Mateus, após a prisão de João Batista (4,12) Jesus deixa a Judeia e volta para Nazaré, na Galileia. De Nazaré, vai morar em Cafarnaum, às margens do mar da Galileia (4,13). daí por diante sua vida será itinerante como pregador pelas sinagogas das cidades, povoados e montanhas da região (4,23). Também os discípulos após instrução vão pregar nas redondezas (10-11) enquanto Jesus tem suas idas e vindas entre Nazaré, Cafarnaum e região (13,53-54s). Quando informado da morte de João Batista (14,12). Vai a um lugar deserto. O que motivou sua ida “repentina”? Ao que parece a morte do Batista. Não vai só, pelo desenrolar do enredo, os discípulos vão junto, e a multidão percebe sua saída.      Ao chegar com os discípulos, Jesus se dá conta da multidão que sabendo de sua ida para aquele “deserto” vai ao seu encontro (14,14a). Ele ver o povo e tem compaixão, porque essa gente está sedenta de orientação, cura e libertação de seus males. Quais os efeitos da morte do Batista e o abandono do povo tiveram na alma de Jesus? Pela sua reação se pode dizer que, ele assumiu a veia profética do ensino e a atividade taumaturga, pois, veja de quantos “males” Jesus os curou. E de modo geral olhando a situação econômica política e religiosa da época podemos arriscar os serviços básicos que traz saúde psicológica, física, espiritual e social, podemos supor um “serviço social” de qualidade que o Estado não oferece, e que em Jesus, o povo encontra esperanças. E ele ver o povo e tem “compaixão” (14,14b). Ao cair da tarde, os discípulos percebem as inquietações da “barriga” e interpela a Jesus, mas ele é que manda os discípulos procurarem a solução ((14,15). Organização daqui, partilha dali, a fé trabalhando, e o milagre acontece. Foi uma “liturgia” comunitária. O gesto significativo (Pegou… ergueu… partiu… distribuiu) de Jesus nos remete a “ceia eucarística” (14,19) já praticada nas comunidades como sinal e sacramento da presença de Jesus ressuscitado (1Cor 11,23-26 – texto mais primitivo da ceia). A cena também nos faz lembrar o milagre do pão feito pelo profeta Eliseu (2Rs 4,42-44); e pela caminhada do povo pelo deserto (Ex 16s). E as sobras? Doze cestos! E o número da multidão? Tudo isso parece que o evangelista está querendo dizer algo mais a sua comunidade destinatária do Evangelho e aos seus ouvintes.

            Marcos que tem o texto mais antigo dos evangelhos, nos dá como contexto para a ida ao deserto não a notícia da morte do Batista (6,14-29; Mt 14,13a) que aqui soa apenas como uma “nota” de roda pé sem muito significado e sem ligação com a cena seguinte – contrariando Mateus. Para Mateus, a ida de Jesus ao deserto é principalmente a notícia da morte do Batista. Marcos, porém, mostra diferente: em 6,6b-13, onde conta o envio e o sucesso das atividades missionárias dos discípulos, o evangelista interrompe a sequência para dá a notícia da morte de João (6,14-29) e em seguida, dá continuidade à cena anterior motivando a cena posterior, a da multiplicação (6, 30-44). Mas, o texto da morte de João aí não tem sentido? Sim, mas numa outra lógica, de modo que aqui, ela está “fora de contexto” no enredo. Serve como uma “nota alheatória” para enfatizar a “fama” de Jesus junto aos poderes constituídos (Herodes), mas que em nada contribui para o desenrolar da cena.

            Para Marcos, o sucesso da missão dos discípulos e sua partilha com Jesus os leva a “um lugar deserto” para descansar (6,31) porque os que chegavam e os que partiam eram tantos que não tinham nem tempo para uma refeição. Seria esses os “que chegavam” e os “que partiam” pelo seu número (“eram tantos”) os discípulos do tempo de Jesus ou do evangelista? No desenrolar da cena temos umas expressões usadas pelo o evangelista que não tem em Mateus, “estavam como ovelhas sem pastor”, e Jesus lhes “ensinava muitas coisas”. Além de informar qual a moeda (denário – moeda de circulação romana no tempo de Jesus que equivalia a um dia de trabalho braçal, no Brasil de hoje uns R$ 80, 100 reais) e quanto em dinheiro (duzentos denários) precisam para saciar a fome dessa gente (6,37). Tais detalhes próprios de Marcos refletem também de alguma forma a realidade de seus ouvintes/destinatários.

            Ademais, a sequência dos fatos não tem muita discrepância de modo que, o evangelista, já menciona aquilo que é comum a tradição eucarística das comunidades.

             Lucas parece estar mais próximo de Mateus em algumas coisas, do que de Marcos que tem o texto maior. Algumas características nos chamam atenção: Em 9,1s Jesus envia os Doze, no verso 7s não cita em detalhes a morte do Batista, apenas limita-se a noticiar que Herodes ouve falar da fama de Jesus e pensa ser o profeta que havia mandado matar e que agora está vivo. Como em Marcos, Lucas do verso 10 a 17 trata da multiplicação do pão como ligado ao contexto da missão ocorrida anteriormente (9,1-6), sem nenhuma interrupção da nota noticiada sobre o Batista. A notícia só dá ênfases a fama de Jesus cujo rei deseja vê-lo. Desse modo fica claro o que levou Jesus a um lugar de descanso. Lucas cita no seu texto que o “lugar deserto” fica nas imediações de Betsaida. Outa coisa é que o evangelista menciona o conteúdo de sua pregação e ensino ao povo: o reino. Como também de suas atividades taumaturga (9,11b,c). No decorrer do enredo, o evangelista não difere muito da tradição eclesial quanto ao ritual eucarístico que é gesto/presença de Jesus.

            Um outro elemento que nos chama a atenção nos sinóticos é que no texto de Mateus a palavra “discípulos” aparece três vezes; enquanto em Marcos quatro vezes, e “apóstolos” aparece uma vez só; e Lucas repete “discípulos” também três vezes, e “apóstolo” duas vezes e “Doze” (fazendo referência aos apóstolos) uma vez. Isso indica para nós duas possibilidades: primeiro, os discípulos estão em um número maior junto com o mestre, e fazem parte ativamente da cena (seria uma referência aos “discípulos” “cristãos” das comunidades na época em que foi escrito a perícope?); e segundo, os doze apóstolos aí na cena já indica um “grau de hierarquia” (status, destaque) nas comunidades e tem um “tom simbólico” na perícope do evangelista. Desse modo, talvez sua menção reflita mais a realidade eclesiológica do que do fato em si mesmo (Atos 6,1-7).

            No evangelho de João temos o relato da multiplicação dos pães (capitulo 6,1-15) mas, diferentemente dos evangelhos sinóticos, João tem outra conotação teológica com enredo próprio acompanhado de um longo discurso sobre “o Pão da Vida” parafraseando o Êxodo de Moisés. Entretanto, uma coisa é comum aos quatro evangelistas: apesar de ser uma releitura do fato ocorrido em si, todos eles, dá seu próprio “tom” teológico e indica ter havido uma única multiplicação dos pães, sendo a segunda uma releitura da primeira em contexto helenista (confira nota no roda pé da BJ nos relatos citados nesta reflexão).

No geral, o que podemos partilhar é que, a perícope da multiplicação dos pães tanto nos remete a Jesus no auge do seu ministério pelo reino, no meio do povo, juntamente com seus discípulos, como podemos enxergar aí a realidade do povo contemporâneo a Jesus quanto a realidade eclesial das comunidades contextualizadas no império romano anos depois. Os povos das comunidades em sua maioria eram sim excluídos da sociedade quando da adesão a fé cristã e vivendo as margens construiu em torno da “memória viva” do Senhor segundo a tradição apostólica sua própria “alternativa” ainda que insignificante para o império de uma sociedade igualitária e justa baseada na mensagem e pessoa de Jesus. Desse modo o reino, e o milagre da multiplicação não são apenas uma ideia abstrata e muito menos um “milagre” por milagre, mas é algo mais, é uma nova vida, uma nova esperança cuja lição na Eucaristia estava a semente, o cerne, que tanto é Jesus, como as ações dele nas ações de seus discípulos de ontem e de hoje.

Bibliografia consultada:

Sinopse dos Quatro Evangelhos. Frederico Dattler – São Paulo: Paulus, 1986

– Bíblia de Jerusalém, São Paulo: Paulus 2002

O caminho do seguimento no Evangelho de Lucas. Wenzel. João Inácio. São Leopoldo: Cebi, 1998.

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