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O Contexto que gerou a Deportação para o Exílio

Esse texto é copiado do site do Airton. Ele é teólogo e biblista católico conceituado.

Fonte: www.airtonjo.com

O Fim do Reino de Israel (Norte)

exiliodababiloniaA Assíria Vem Aí: Para Israel é o Fim

Com a morte de Jeroboão II desabou tudo o que ainda restava em Israel, apesar de tudo. De 753 a 722 a.C. seis reis se sucederam no trono de Samaria, abalado por assassinatos e golpes sangrentos. Houve 4 golpes de Estado (golpistas: Salum, Menahem, Pecah e Oséias) e 4 assassinatos (assassinados: Zacarias, Salum, Pecahia e Pecah):

  • Zacarias, filho de Jeroboão II, governou 6 meses (753 a.C.) e foi assassinado
  • Salum filho de Jabes governou 1 mês (753/2 a.C.): foi assassinado
  • Menahem filho de Gadi (753/2-742 a.C.) já teria começado a pagar tributo à Assíria
  • Facéias filho de Menahem, reinou de 742/1-740 a.C. e foi assassinado
  • Facéia, filho de Romelias, governou de 740/39 a 731 a.C.
  • Oséias, filho de Ela, assassinou Facéia e foi o último rei do norte, de 731a 722 a.C.

O profeta Oséias lamenta o golpismo da época:

“No dia de nosso rei,os príncipes ficaram doentes pelo calor do vinho,e ele estendeu a sua mão aos petulantes quando se aproximaram.Seu coração é como um forno em suas insídias, a noite inteira dorme a sua ira, pela manhã ela arde como uma fogueira. Todos eles estão quentes como um forno, devoram seus juízes. Todos os seus reis caíram. Não há entre eles quem me invoque” (Os 7,5-7).

A grande ameaça internacional era a Assíria. Em 745 a.C. subiu ao trono assírio um hábil rei: Tiglat-Pileser III.

Ele começou por resolver os problemas com os babilônios no sul da Mesopotâmia, dominando-os. Depois, tomou Urartu, ao norte. Pacificou os medos no norte do Irã. Em seguida, pôde ocupar-se com o oeste: começou pela Síria, contra a qual efetuou várias campanhas a partir de 743 a.C.

Por que a Assíria ambicionava a região? Por causa:

  • da madeira e dos recursos naturais
  • do Egito, o eterno rival
  • da Ásia Menor
  • do controle do comércio do Mediterrâneo.

Em 738 a.C. Tiglat-Pileser III já submetera grande parte da Síria e da Fenícia. Israel começou a pagar-lhe tributo possivelmente já sob o governo de Menahem. Foi um imposto per capita que atingiu cerca de 60 mil proprietários de terras. Mas grupos patrióticos assassinaram em Israel o rei submisso à Assíria. E o oficial que subiu ao poder imediatamente tornou-se chefe de uma coalizão anti-assíria que congregava a Síria, os filisteus e outros.

Facéia, este era seu nome, queria que Judá se aliasse a ele. Judá, sabiamente não quis. Então, o rei de Damasco e o rei de Israel invadiram Judá pelo norte e cercaram Jerusalém. Isto foi no ano de 734 a.C. e é a chamada guerra siro-efraimita. Em Judá reinava Acaz.

Os edomitas, que dependiam de Judá, aproveitaram a ocasião e declararam sua independência. Derrotaram as tropas de Judá em Elat e destruíram a cidade.

Os filisteus, também dominados por Judá, igualmente não perderam tempo. Invadiram o Negueb e a planície da Shefelah, conquistando algumas cidades de Judá.

Deste modo, Judá foi invadido por três lados e não tinha como resistir. A saída foi pedir o auxílio da Assíria. Isaías foi contra este passo e avisou Acaz de que suas conseqüências seriam terríveis.

Isaias 7,3-6:

“Então disse Iahweh a Isaías: Vai ao encontro de Acaz, tu juntamente com o teu filho Sear-Iasub [= um resto voltará]. Encontrá-lo-ás no fim do canal da piscina superior, na estrada do campo do pisoeiro. Tu lhe dirás: Toma as tuas precauções, mas conserva a calma e não tenhas medo nem vacile o teu coração diante dessas duas achas de lenha fumegantes, isto é, por causa da cólera de Rason, de Aram, e do filho de Romelias, pois que Aram, Efraim e o filho de Romelias tramaram o mal contra ti, dizendo: ‘Subamos contra Judá e provoquemos a cisão e a divisão em seu seio em nosso benefício e estabeleçamos como rei sobre ele o filho de Tabeel.”

Tiglat-Pileser III destruiu rapidamente as forças aliadas. Começou pela costa e avançou sobre os filisteus desbaratando-os completamente. Estabeleceu uma base no extremo sul, cortando qualquer possível ajuda egípcia. Virou-se, em seguida, contra Israel e saqueou toda a Galiléia e a Transjordânia. Deportou uma parte do povo e destruiu numerosas cidades.

Neste ínterim, Facéia de Israel foi assassinado e seu sucessor, Oséias (não se confunda o rei Oséias com o profeta), submeteu-se imediatamente à Assíria e pagou-lhe tributo.

A destruição foi paralisada. Faltava só Damasco. Tiglat-Pileser III conquistou-a, executou o rei e deportou a população, em 732 a.C.

Depois da tempestade, o que se viu foi o seguinte: a Síria não existia mais, passara a província assíria. De Israel pouco restara: toda a costa, a Galiléia e o Galaad passaram para a Assíria.

Entretanto, ainda não era tudo. O rei Oséias só se submetera à Assíria porque não tinha outra saída. Quando Tiglat-Pileser III foi sucedido por Salmanasar V, Oséias pensou ser o momento bom para a revolta. Começou a negar o tributo à Assíria e a ligar-se ao Egito.

Foi um suicídio. O Egito estava todo dividido e muito fraco. Não veio ajuda nenhuma. Salmanasar V atacou, prendeu o rei, ocupou o país e cercou Samaria em 724 a.C.

2Reis 17,3-6:

“Salmanasar, rei da Assíria, marchou contra Oséias e este submeteu-se a ele, pagando-lhe tributo. Mas o rei da Assíria descobriu que Oséias o traía: é que este havia mandado mensageiros a Sô, rei do Egito, e não tinha pago o tributo ao rei da Assíria, como o fazia todo ano. Então o rei da Assíria mandou encarcerá-lo e prendê-lo com grilhões. Depois, o rei da Assíria invadiu toda a terra e pôs cerco a Samaria durante três anos. No nono ano de Oséias, o rei da Assíria tomou Samaria e deportou Israel para a Assíria, estabelecendo-o em Hala e às margens do Habor, rio de Gozã, e nas cidades dos medos”

Samaria caiu em 722 a.C. e o filho de Salmanasar V, Sargão II foi quem se encarregou da deportação e substituição da população israelita por outros povos que foram ali instalados.

Segundo os anais de Sargão II, o número de deportados samaritanos foi de 27.290 pessoas. Com a instalação, no território, de outros povos e outros costumes chegou para Israel do norte o fim definitivo.

O Fim do Reino do Sul (Judá)

exiliodababiloniaOs Últimos Dias de Judá

Em 612 a.C. a Assíria teve seu império assaltado e sua capital destruída pelos medos e babilônios. Seu rei fugiu para Harã e resistiu ainda dois anos, com ajuda egípcia. Diz a Crônica Babilônica:

“No décimo sexto ano de Nabopolassar, no mês de ayyar, o rei da Babilônia mobilizou suas tropas e marchou contra a Assíria (…) No mês de arahsammu os medos vieram em auxílio do rei da Babilônia; eles uniram suas tropas e marcharam para Harã contra Assur-ubalit, que se tinha assentado no trono da Assíria” (Cf. AA.VV., Israel e Judá, pp. 81-82.).

Em 610 a.C. o rei da Assíria é desalojado de Harã. Em 609 a.C. os assírios tentam, mais uma vez, tomar Harã. Sem sucesso. Os egípcios foram ajudá-los. Josias, rei de Judá, procura deter as forças egípcias em Meguido. É morto e levado para Jerusalém, com grande desolação para o povo. Josias tentava impedir a retomada do controle egípcio sobre a sua região. E faliu. Tinha 39 anos de idade.

Seu filho Joacaz sobe ao trono em 609 a.C., quando contava 23 anos de idade. Como assírios e egípcios nada conseguiram contra os babilônios, o faraó Necao II procurou consolidar seu poder na Palestina.

Chama Joacaz até seu quartel-general na Síria, depõe o azarado rei e deporta-o para o Egito. Coloca no trono de Judá o irmão de Joacaz, Joaquim, que tinha 25 anos de idade. Joacaz reinara três meses…

Judá passou então a pagar pesado tributo ao Egito, o que durou até 605 a.C., quando o rei babilônio Nabucodonosor derrotou as forças egípcias e desceu até a Palestina. Joaquim fez com ele um acordo e Judá não foi destruído.

Mas não durou nada. Em 600 a.C. Nabucodonosor tentou invadir o Egito e não conseguiu. Judá rebelou-se, acreditando na libertação. Seu erro foi fatal. Enquanto os babilônios marchavam para Jerusalém, morreu Joaquim (talvez assassinado), em dezembro de 598 a.C. e foi substituído por seu filho Joaquin, de 18 anos, que capitulou no dia 16 de março de 587 a.C.

O rei foi deportado para a Babilônia com a corte e toda a classe dirigente. Segundo a Crônica Babilônica

“No sétimo ano, no mês de kismilu [18.12.598-15.1.597], o rei da Babilônia mobilizou suas tropas e marchou para Hattu. Ele se estabeleceu na cidade de Judá e no mês de addar, no segundo dia [16.3.597], ele tomou a cidade; aprisionou o rei e colocou outro, de sua escolha, no lugar dele, e exigiu uma pesada renda que levou para a Babilônia” (Cf. AA.VV.,  Israel e Judá, p. 84)

No lugar de Joaquin os babilônios deixaram o tio, Sedecias, então com 21 anos de idade. Judá estava mesmo arruinado. Com várias cidades destruídas, sua economia desorganizada e o melhor da nação exilado, pouco restava ao fraco Sedecias que pudesse ser feito.

Algumas tentativas de revolta foram abafadas. Finalmente, em 588 a.C., Judá começou uma clara rebelião contra a Babilônia, que o levou à destruição final.

Os babilônios destruíram, em 588 mesmo, as cidades fortificadas de Judá, assediando a desesperada Jerusalém em 587 a.C., no mês de janeiro.

Na fortaleza de Laquis, situada a 45 km a sudoeste de Jerusalém, numa estrada que leva ao Egito, foram encontrados, em 1935 e 1938, vinte e um óstraca. Testemunhos dramáticos da invasão babilônica de 588 a.C., os óstraca [pedaços de cerâmica sobre os quais se escrevia uma mensagem] falam do cerco, da situação crítica em que se encontram e das medidas tomadas (Cf. dois textos em AA.VV., Israel e Judá, pp. 85-86.)

Durante um breve período, o cerco de Jerusalém foi levantado: havia a esperança egípcia. Que não se concretizou. Finalmente, em 19 de julho de 586 a.C., Jerusalém cedeu.

Sedecias fugiu na direção de Amon. Não adiantou. Foi preso e levado diante de Nabucodonosor a Rebla, na Síria, assistiu à execução de seus filhos, foi cegado, acorrentado e levado para a Babilônia, onde morreu.

Em agosto, o comandante da guarda de Nabucodonosor entrou em Jerusalém, incendiou tudo, derrubou o Templo, as muralhas, levou as pessoas de maior destaque que executou em Rebla, diante de Nabucodonosor, enquanto deportava outro grupo para a Babilônia. Calcula-se que cerca de 4.600 homens da classe dirigente judaica tenham ido para o exílio. Somadas as mulheres e as crianças, seu número poderia chegar a quase vinte mil pessoas. A população restante, camponesa, foi deixada no país.

Estes dados estão em Jr 52,27-30, que documenta três deportações: a de 597 a.C., sob Joaquin; a de 586 a.C., sob Sedecias; e uma última, de 582 a.C., talvez em represália ao assassinato de Godolias.

Porque, de fato, na Judéia, os babilônios colocaram Godolias como governador. Godolias acabou assassinado pelo nacionalista Ismael, em outubro do mesmo ano. Acabara-se Judá. A história do povo, e sua literatura, vão continuar no exílio, que durou 48 anos. Os judaítas puderam começar o retorno à terra só após 538 a.C., quando Ciro, o rei persa que conquistou o império babilônico, decretou a anistia dos povos deporta­dos.

Por Que Judá Caiu?

Quando Judá entrou na fase crítica de enfrentamento com o poderio estrangeiro, balançando entre o enfraquecido Egito e a fortalecida Babilônia, a nação estava totalmente despreparada para a crise.

Não estamos falando de forças militares, pois por aí é que o país não acharia mesmo nenhuma saída. Enquanto as maiores potências da época mantinham grandes exércitos regulares e, principalmente, financiavam, a peso de ouro, exércitos mercenários, os pequenos reinos tinham que contar, em boa parte, com voluntários despreparados para guerras prolongadas.

Mas estamos falando de outro despreparo. Despreparo gerado pelas atitudes políticas falhas e pela ideologia dominante enganosa de Judá.

Desde a época de Davi vinha sendo elaborada uma crença específica, a da invencibilidade de Jerusalém, associada à crença na perpetuidade da dinastia davídica.

Quando Davi conquistou Jerusalém e estabeleceu ali a sua capital, algumas providências significativas foram tomadas. Tais como: a transferência da Arca da Aliança para a nova sede, a constituição de uma sacerdócio associado e submisso ao Estado e a tentativa de construção de um Templo, o que, de fato, foi feito por Salomão.

Jerusalém, antiga cidade-fortaleza jebuséia, carecia de legitimidade javista. Os tradicionais santuários do povo de Israel estavam mais ao norte, eram Siquém, Silo, Betel, Guilgal etc. A transferência da Arca, espécie de trono móvel de Iahweh, foi uma manobra davídica para dar legitimidade à sua cidade (cf. 2Sm 6).

Outro dado interessante é a associação do sacerdócio à nova ordem real que se estabeleceu com Davi. Ele tinha, como sabemos através de 2Sm 8,15-18, uma curiosa dualidade tanto no comando do exército quanto na chefia do sacerdócio. Ou seja: dois generais, Joab e Banaías, comandam o exército, enquanto dois sacerdotes, Abiatar e Sadoc, comandam o sacerdócio. Esta dualidade poderia significar que o general Joab e o sacerdote Abiatar representavam as forças tradicionais de Israel, enquanto o general Banaías e o sacerdote Sadoc representavam a nova ordem monárquica, sem ligação com as tradições tribais. Ora, sabemos que, sob Salomão, Joab foi morto e Abiatar desterrado, assumindo os seus cargos Banaías e Sadoc, respectivamente (cf. 1Rs 2,26-35). Foi a vitória da nova ordem monárquica.

Enquanto nas tribos do norte esta [a instituição monárquica] é inserida no direito sagrado javista, no território de Judá a monarquia é vista como uma realidade estranha à ordem sagrada, como um fenômeno estritamente dependente de uma oportunidade política. Com o tempo, os “anciãos de Judá” vão perdendo sua liderança, gradualmente absorvidos pela monarquia e pela corte de Jerusalém. É neste contexto que se desenvolve uma teologia da perpetuidade da dinastia davídica, referendada pelo profeta Natã (2Sm 7), e da sacralidade de Sião, moradia de Iahweh, que garante a inviolabilidade de Jerusalém.

Esta teologia pode ser vista também em vários salmos, como o 2, o 89 e o 132. Elaborada pelos sacerdotes associados ao poder real de Jerusalém, obviamente esta teologia apareceria nos salmos, pois estes representam também orações e celebrações do Templo.

Essa nova teologia não foi, provavelmente, toda elaborada no tempo de Davi. Foi ele, porém, quem a iniciou. Os Salmos, por exemplo, expressão máxima desta teologia, até o dia de hoje são atribuídos majoritariamente à autoria de Davi.

Como vimos, com a morte de Josias quase tudo se perdeu: o poder real sob Joaquim tornou-se extremamente despótico e o Templo, fortalecido pela centralização do culto, associou-se, mais uma vez, aos desmandos da classe dominante enquanto a legitimava e ocultava suas práticas através da religião.

Quanto mais próximo estava o desenlace da crise, mais a nação se apegava ao dogma da inviolabilidade da cidade, especialmente do Templo. Isto interessava aos poderes dominantes, pois garantia seus privilégios a curto prazo. Judá sabia, observando os acontecimentos, que enfrentaria, mais cedo ou mais tarde, a ameaça sem limites do poderio babilônico.

Podemos acompanhar, acerca desta época, os testemunhos dramáticos dos profetas Habacuc, que pregou entre 605 e 600 a.C., e Jeremias, que atuou incansavelmente desde 627 a.C., vendo, angustiado, o fim de seu país e indo morrer no Egito por volta de 580 a.C.

                Tudo isso, levou Judá a cair e se tornar exilado.

Para Assimilação:

  1. Quais os principais elementos que levou à destruição do reino de Israel e Judá? Por que?
  2. Quais os principais personagens em evidência? Qual a sua contribuição?
  3. Que impacto causou esse texto (apostila) no seu exercício da leitura bíblica? Por que?
  4. Que mensagem de Deus você encontra nessas leituras, mediante o contexto, e como podemos traduzir para hoje?
  5. Se tivermos que falar do “reino de Deus” ou da “presença de Deus” na vida do povo com base nos textos em que está a situação final do reino do norte e do sul (nos livros dos reis, das crônicas e dos profetas), o que poderíamos dizer? Ex.: diante da situação social em que vive o povo; ou do período militar; ou ainda do momento pelo qual está passando o país ou o mundo com a globalização.

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