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Noé

noeOs textos de Gênesis 6-9 nos relata a saga de Noé. O enredo é conhecido, por isso não há necessidade de sua narração. O que queremos é tecer algumas linhas de reflexão para proveito espiritual.

           Primeiramente, situemos o texto no seu contexto. O texto é provavelmente do século V, a.C, escrito no período exílico ou após ele pelas comunidades exiladas; no texto, há duas tradições javista e sacerdotal, além da mão do redator final; nele está contido elementos e informações muito frágeis cujos elementos possivelmente é de releitura de tradições bem mais antigas dos povos da região (assírios, sumérios, babilônicos, gregos) e cuja excentricidade nos é conhecida pela história de seus mitos e lendas; como texto bíblico, se dirige exclusivamente e está ligado a história de Israel enquanto povo em aliança com o seu Deus.

           Segundamente, o texto em seu conjunto está ligado aos desdobramentos dos capítulos anteriores (Gn 1-6,4) e aos capítulos posteriores (Gn 10-12) que é a continuidade da história. Assim, os capítulos em questão, servem como que uma dobradiça que une a ambos os lados: uma história que fracassou e uma nova que traz consigo a esperança, um novo recomeço. Noé está no meio e carrega em sua história as novas possibilidades.

           Muito bem, com um olhar bem atento sobre essa história, percebemos no enredo o motivo do fracasso e do recomeço: o coração humano marcado pela maldade e; o coração de Deus cheio de justiça e misericórdia. E apesar de agir com coração e sentimentos humanos (6,3.5-7) ele tem a capacidade divina de julgar, condenar e/ou salvar. Isto faz toda a diferença e Noé reconhece isso em Deus, por isso mesmo é considerado justo. E por ser justo, pela graça (6,8; 7,1) se salva a si e sua família, bem como, muitas das espécies da natureza.

           Deus, ao salvar Noé e a todas as espécies da natureza, inicia uma nova história; porém, com ela também as limitações e fragilidades do coração humano principalmente a maldade arraigadamente humana veem juntas; entretanto, o pessimismo não é algo que o texto queira frisar. O otimismo, sim, é latente no texto, e nos quer mostrar que a história, a nova história, tem muitas possibilidades e chances, afinal, não é Noé o justo? (7,1)

           Com essa perícope as comunidades judaicas estão refletindo a sua própria existência histórica e seu lugar na lista dos povos da terra prometida. É uma história fundante, que funda a fé e a esperança, cuja terra habitada (o novo paraíso) pertence a Deus, e ele a dá em aliança novamente. Aliança com o novo homem, com a nova humanidade: Noé. Mas, nossa reflexão ao olhar para o texto é um pouco mais ampla, parte da perspectiva cristã, cuja releitura dos textos nos diz que, esse nos fala dos desígnios de Deus no processo da Revelação e da Salvação universal: apesar de tudo e acima de tudo (seja lá o que o ser humano for e traz dentro de si) Deus pensa, cuida, ama e salva os humanos. A iniciativa de salvação é sempre dele. Isto é um dado de fé, da fé cristã.

           É esse o sentimento do texto: Deus em sua justiça e misericórdia nos salva a todos, dependendo, entretanto, da opção de cada um ser salvo ou não. Isto é, como Noé, andar na justiça.

           Recentemente, a indústria cinematográfica lançou o filme “Noé”. Uma epopeia entre realidade textual e a mitologia antiga explorada com arte magistral e criativa, coisa da Sétima Arte. O filme não faz apologia teológica dessa ou daquela ideia, mas trabalha muito bem certos temas e aspectos de modo prático, leve e divertido, porém sem perder a seriedade do texto: a retidão; a morte e a vida como sendo relativas frente a vontade de Deus; o julgamento e a graça como consequência das atitudes de cada um; a transitoriedade da vida; os conflitos de ordem tribal, pessoal e familiar; a compaixão e o sentimento nobre que vagueia o coração humano – o amor; etc.

O mérito do filme e seus autores e diretores foi justamente colocar tudo isso de modo leve, numa linguagem moderna, mítica e responsável sem entrar em detalhes meritórios dessa ou daquela corrente teológica. Alias, me parece que o filme é mais textos em ação cinematográfica do que teologização do próprio texto. Talvez, por isso mesmo, tenha tocado tanto, pelo menos, foi o que percebi ao final do filme: os jovens saíram silenciosos, reflexivo, sem algazarra e conversas fúteis. Nunca vi algo assim! Realmente me impressionou! Das duas, uma: ou eles nada entenderam e por isso, não valeu apena, não tendo o que comentar substancialmente; ou realmente o filme lhes deixou algo muito forte a ponto de os comove e os deixar reflexivamente silenciosos…

           Bem, quanto ao filme, o que posso dizer mais? Foi muito bom. Recomendo. Não tem lá de coisas grandes, estupendas e maravilhosas de Hollywood e suas grandes tecnologias, mas, tem algo de sul real e interessante. Vale apena conferir.

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