Introdução

Com este artigo partilhamos com você alguns elementos de reflexão sobre a fé. No ano de 2012-2013 a Igreja de matriz Católica Romana proclamou para seus fieis como sendo o ano da fé. Aqui, não pretendemos um tratado sobre o assunto, mas confrontar a realidade cotidiana do crente, fazendo uso do Magistério da Igreja, bem como das Sagradas Escrituras, para em seguida, ampliar a discursão oferecendo elementos de reflexão.

No dizer popular, a fé é algo “que move montanhas”; realiza o impossível; em dado momento “restaura forças, energias e sonhos”; transforma realidades, necessidades em possibilidades dinâmica. A fé acende a certeza de viver e saborear a vida.

 

Vista por esse ângulo, a fé traz consigo a realidade celeste transcendental; traz consigo o “ar”, a “atmosfera”, o “habitat” natural de Deus, o “cheiro” de Deus para dentro de nossa realidade existencial.  Por um instante, o tempo e o não-tempo se iguala de tal modo que todo nosso ser, corpo-e-alma, pres-sente de modo perceptível e extraordinariamente a graça da fé; e tal acontecimento nos dá uma convicção tamanha que funda nova práxis.

Não obstante a tudo isso, a fé, por outro lado é demonstrada, pensada, avaliada e refletida sob certos aspectos concretos cujo conteúdo se desdobra na pratica cotidiana conforme a consciência, o compromisso, o engajamento, e a devoção sob formas e ritos da religião.  

Por outro lado também, a fé consiste em conhecer, amar e seguir Jesus de Nazaré. E aqui, a fé não consiste em uma ideia, uma filosofia de vida ou um sistema qualquer, mas adesão a uma pessoa concreta e aquilo que ela nos propôs que de algum modo ultrapassa a própria compreensão e existência. Se não vejamos.

 

A fé enquanto crença em doutrinas, dogmas, revelações e pertença a um grupo religioso.

Enquanto o ser humano se distingue das demais criaturas pela sua capacidade de pensar, interagir, ser livre, ser criativo e amar; uma outra característica lhe é arraigadamente humana: o ser religioso. Daí, entender que, mesmo negando essa realidade e é um direito seu, o ser humano possui capacidade de transcender, de devotar e crer naquilo que para si constitui verdade e lhe diz de sua condição a mais que a própria realidade transitória. Assim, é compreensível que neste contexto a fé seja crer, acreditar com todo seu ser naquelas realidades cuja ideia e ideologia é considerada uma Doutrina, Dogma ou mesmo e até, revelações.

Então, ter fé é acreditar e professar aquelas ideias (doutrinas, dogmas...) cujas verdades lhe diz respeito enquanto crente e fiel de uma denominação ou/e comunidade religiosa, a Religião, com todas as características próprias (ritos, normas, leis, dogmas, doutrinas, revelações, crenças etc.,) que a identifica. Assim, pertencer a tal grupo já demonstra fé e uma fé que mesmo racionalizada tem seu ar de mistério e transcendência.

 

A fé enquanto pertença e afirmação do Ser-para... Jesus Cristo.

De outro modo, a fé também consiste de modo particular professar Jesus de Nazaré, como O Cristo, Senhor. Nesse caso, tal fé é mais que somente acreditar em doutrinas, dogmas e revelações; é conhecer, acreditar, aceitar, viver e ter como referencia existencial e transcendental a pessoa e mensagem de Jesus, o crucificado ressuscitado. Aqui, não temos uma ideia, mas uma pessoa e sua práxis. Uma pessoa cuja extraordinária existência transcende toda e qualquer possibilidade e preenche de modo radical o vazio que sufoca a própria vida, a própria existência. Ele sacia a sede do infinito; sacia a sede divina de Deus em nós; a longevidade existencial.  Ele é sentido para o sem sentido.

Nesse caso, tal fé se adquire e supõe conhecer, amar e seguir de modo radical a pessoa de Jesus de Nazaré. E podemos encontrar esse conhecimento ora nos textos Sagrados das Escrituras; ora na vida das pessoas, de modo particular e especial dos pobres, do povo dos pobres com quem em vida terrestre se identificava; ora por uma graça concedida, bem como, pela ação de seus seguidores discípulos/as.

Por essa ótica, todas as outras realidades pensadas, refletidas, acreditadas são e ressoam como consequência dessa fé primeira; doutrinas, dogmas, revelações, tem seu lugar, sua importância, mas enquanto categoria, tal discurso fica como que, num segundo plano, mediante a pessoa de Jesus de Nazaré, o Cristo Senhor. Nele, a humanidade e a divindade constitui uma realidade só, porém distintas cada qual no seu plano próprio, podendo interagir. Está em um segundo plano não denota inferioridade, nem mesmo ‘um antes’ e ‘um depois’ mas que se tem dinâmica própria dentro das realidades, mormente a própria fé. Jesus é, para aqueles que n’Ele crer com firme convicção, objeto de fé, inspira a fé, e a alimenta. É algo concreto, visceral, existencial e transcendental.

 

A fé enquanto crença nas realidades celestes transcendental

Por ultimo, trazemos como elemento de reflexão a fragilidade da existência e sua real potencialidade emergente como vocação para a plenitude e eternidade. De que se fala aqui? Daquelas realidades bem-aventuras; das últimas coisas cujo fim tem como certo não a morte, mas a vida, e vida plena.

Fé é acreditar de modo inequívoco na real possibilidade de um novo “mundo” (aqui usado para designar ‘céu’, ‘paraíso’, ‘eterno’, ‘reino escatológico’, etc.,) cuja realidade é totalmente transcendental; completamente diferente de tudo que já vimos; são realidades celestes acrisoladora, benfazeja, o mundo de Deus mesmo.

Essa fé, se nos apresenta por pura convicção; por graça e verdade; engloba toda a nossa existência e nos diz do destino final. Sobre ela há mais conjecturas, fantasias, culturas e uma convicção existencial axiomática e transcendental. Essa fé nos dá consequências e move toda nossas estruturas.

Dito desse modo e colando nesses termos, tal fé, seria analogicamente uma outra forma de expressar aquelas mesmas convicções concernentes a Jesus Nazareno, o crucificado vivente, Cristo Senhor. Entretanto, sob outra ótica e amplidão, de forma que essa é uma extensão e consequência daquela outra em contextos diversos, que extrapola até mesmo o cristianismo. Contudo, a essencialidade e conceito concernente dessa fé reside no fato de que há uma realidade complexa supra totalmente diferente da que conhecemos e com a divindade tem características próprias que vai além do que possamos imaginar, daí ser fato de fé, fé que emerge por outros caminhos cuja excentricidade não passa pela tradição cristã mas de certo modo a supõe e nela se completa.

 

Conclusão

A fé é objeto da pregação, da meditação, da reflexão e do nosso agir. Aparece como virtude teologal (fé, esperança e caridade) no Catecismo da Igreja; ela vem pelo ouvir, faz morada no coração e ideia pela razão. Torna-se gesto concreto pela ação de quem a recebe; e transcendência pela simples convicção de que lá existe algo a mais para além dos nossos sentidos e de nossa “vã filosofia”.

Existem outros aspectos da fé que não levantamos aqui. A fé e as obras como essencial na recepção da salvação; bem como atitude de quem a recebeu e se sente salvo; a fé como essencial para a realização de milagres; a fé como lei, etc. Mas, o que foi dito aqui já abre um grande leque para discutir esse tema tão importante; e nos conscientizar da fé que recebemos e dá sentido existencial ao nosso cotidiano.

 

Fontes consultadas:

- Eu creio – Pequeno Catecismo Católico. Edição em Português. Ed.Verbo Divino, 2005.

- Ferreira, Aurelio Buarque de Holanda. Mini Aurélio – o dicionário da língua portuguesa. 8ª edição. Curitiba: Posítivo, 2010.

- Biblia Sagrada – edição da família. Petrópolis. Vozes, 2001.

- Pedro, Aquilino de. Dicionário de termos religiosos e afins. Aparecida. Santuário, 1993.

- Comblin, José.  O Caminho – ensaio sobre o seguimento de Jesus. São Paulo. Paulus, 2005.

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