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Gênesis de 1 a 11

            Os relatos de Gn 1 a 11 não constituem fatos “históricos”, mas são leituras da historia a partir da fé num contexto de exílio e choques culturais entre o povo de Israel e os povos do Oriente Antigo. Muitos cristãos infantilizados na sua percepção religiosa têm dificuldades para entender a “verdade” quando se deparar com uma leitura contextualizada desses textos, e reagem de modo grosseiro, meio que “protestante”, expondo-se ao ridículo.

            Com clareza e abertura de coração meditemos nessas linhas, alguns traços da verdade bíblica em seu contexto e reafirmemos a fé na Igreja e nas Escrituras, de modo que, compreendida, possamos contemplar a glória de Deus.   

1  O contexto antes do texto

            Antes do povo de Israel conhecer, meditar e escrever esses textos (Gn 1 a 11), ele passava por uma situação de exílio, onde estava fora de sua terra natal. Foi provocado a rever sua fé, sua existência, sua história e reafirmar a aliança com Deus Javé, o libertador.  N o dizer de Milton Schwantes, bíblista:

            “Anos atrás e, em parte, até hoje, se diz que estes nossos onze capítulos provêm da Mesopotâmia, da Assíria e da Babilônia. E isso, por um lado, é realmente assim. Estes temas dos caps. 1-11 foram fortemente incorporados nas tradições israelitas e judaítas, quando os assírios e depois os babilônicos conquistaram Israel e Judá, a partir do 8º século: em 732 a. C o norte de Israel foi conquistado pelos assírios, um pouco depois, em 722 a. C, também a Samaria foi tomada. A partir de então, os assírios tomaram conta de todo o norte, de todo Israel, e, inclusive, importaram populações da Mesopotâmia. Com isso, a partir da segunda parte do 8º século, vivia-se em Israel  e em Judá sob a influência direta dos assírios, de seus exércitos e de seus sacerdotes. A  partir de finais do 8º século,  em 701 a. C, Judá foi ocupada pelos mesmos assírios. E o altar principal do templo em Jerusalém passou a ser dedicado aos deuses assírios, no mínimo durante toda a primeira metade do 7º século! E a partir de 597 a.C e de 587 a.C, o templo de Jerusalém foi destruído e a população levada ao exílio pelos babilônicos. Podemos, pois, dizer que a partir de meados do 8º século os contatos entre a Mesopotâmia e Israel/Judá foram intensivos. Israel e Judá passaram a conhecer diretamente a religião assírio-babilônica. Foram oprimidos e quase aniquilados pelos exércitos que atuavam em nome dos deuses babilônicos, dentre cujas principais histórias estava justamente a de sua criação de mundo e pessoas, do Éden e da torre de Babel, do dilúvio e de outros assuntos. As tradições fluíram intensivamente para a Palestina.” (pág. 15)[1]

            Dentro desse contexto nascem os onze capítulos das origens. Segundo Carlos Mesters, bíblista popular e grande catequista, a situação era tal que ele a descreve do seguinte modo, a partir da Bíblia.

            “No mês de agosto de 587 a. C., Nabucodonosor, rei da Babilônia, invadiu a Palestina e destruiu a cidade de Jerusalém (2Rs 25, 8-12; Jr 52, 12-16). O povo de Judá, o Reino do Sul, perdeu tudo o que, até àquele momento, tinha sido a expressão visível da presença de Deus: O Templo, morada perpétua de Deus (1Rs 9,3), foi incendiado (2Rs 25,9). A Monarquia, fundada para durar sempre (2Sm 7, 16), já não existia (2Rs 25, 7).   A Terra, cuja posse tinha sido garantida para sempre (Gn 13,15), passou a ser a propriedade dos inimigos (2Rs 25,12; Jr 39,10; 52,16). Os sinais (sacramento) tradicionais da presença de Deus foram destruídos como um vaso de argila que se quebra em mil pedaços (Jr 18, 1-10). Os que tinham identificados Deus com os sinais tradicionais da Monarquia, do Templo, da posse da Terra diziam: “Deus nos abandonou” (Jr 33, 23; Is 40, 27; 49, 14). “Acabou-se a esperança que vinha de Deus” (Lm 3, 18). O Deus do povo já não fazia mais sentido para eles; deixou de existir. Desapareceu o quadro de referencia que tinha orientado o povo até àquele momento. Muitos preferiram o deus de Nabucodonosor que parecia mais forte. Os textos que melhor ajudam a perceber essa desintegração total do povo no cativeiro são as cinco Lamentações de Jeremias. Sobretudo a terceira e a quinta. A quinta descreve o cativeiro da opressão que, de fora, caiu em cima do povo. A terceira descreve o desespero que, de dentro, estourou na alma do povo. Há também alguns salmos que ajudam a sentir mais de perto a dor do povo: O Salmo 74 (73) descreve o terrível massacre e a destruição do Templo. O Salmo 137 (136) canta a tristeza do povo fora de sua pátria. O Salmo 44 (43) canta a tristeza de quem não entende por que foi tão duramente castigado. Humanamente falando, não havia mais saída. Estavam sem futuro. … Como redescobrir a presença de Deus na vida?” (pág. 16-17)[2]

            Diante dessa situação o povo começou a rever sua fé e sua vida, para dar sentido a tudo isso que estava acontecendo. Essa resposta veio através do olhar sobre a cultura social, política, econômica e religiosa de seus opressores.

  1. O texto nas suas entrelinhas: o que está “por trás das palavras”
  1. Genesis 1, 1-2,4a

            Narrativa poética, usada na liturgia pelos sacerdotes (fonte Sacerdotal). Nela temos 7 estrofes. A criação é feita em 7 dias e há o descanso, o sábado. Por trás do texto está a situação dos exilados oprimidos, sem descanso, dedicados aos trabalhos forçados. Suas crenças são colocadas em contraste com as dos povos babilônicos. Diante de tal situação e vendo a catequese dos babilônicos são motivados a dar razão de sua fé, de sua crença. Esse capítulo é um hino de fé, onde os deuses (astros, sol, lua, água, noite, dia, abismo) babilônicos são interpretados como criaturas de Javé e não como Deus, da forma que os babilônicos entendiam. A criação está em harmonia e a serviço dos humanos que são semelhantes de Deus, ao contrário do que pensava os opressores que entendiam a criação em desarmonia, casa dos deuses e o ser humano como sendo serviçal destes. Esse texto é uma catequese litúrgica sacerdotal contra a teologia dos babilônicos.  Veja no gráfico, como de deuses, as obras passam ser criaturas criadas por Javé, Deus dos oprimidos.

Gn1

            Nesse texto podemos perceber resposta a algumas das perguntas: porque não temos descanso mesmo sendo escravos? O que é o ser humano e qual a sua dignidade? O que é a criação em si e qual a sua função perante o ser humano? Como Deus se apresenta a nós dentro e a partir da criação? A essas perguntas parece que o texto dá respostas claras e define a relação do homem com o criador e com o seu próprio semelhante.

  1. Genesis 2, 4b-3,24

            Esses dois capítulos formam uma unidade só. No texto a linguagem é roseira, é da roça. Seus autores são leigos (fonte Javista), ao contrário do anterior que tem a mão dos sacerdotes e é mais abrangente e universal. O capitulo 2 retrata a situação do povo rural da Palestina, no período do exílio. O texto dá ênfases as chuvas,  ao barro, as plantas, ao ser humano que veio da terra, da amizade com Deus e dos quatro grandes rios que irrigam aquela região do Éden (Oriente):  Fison, Geon, Tigre e Eufrates. Nele, o homem e a mulher são servidores que cultivam o jardim e são amigos de Deus.  Também aqui, diferentemente do primeiro, temos uma visão do mundo e do cosmo diferente. Veja no gráfica a cosmologia, o mundo como era compreendido.

mundojudaico

O capitulo 3 fala da serpente (religião dos opressores), do fruto do pecado e da expulsão do paraíso, de guardas guardando a entrada e das dores-sofrimento do ser humano e sua luta pela vida.

            Esse texto é complexo. Nele, podemos encontrar por trás das palavras o contexto da época em que os reis dominavam o povo eleito, e começaram a ser infiel a Javé, preparando assim, sua expulsão da terra. Também podemos fazer referencia ao tempo que, tanto no Egito, como nos povos da região, havia antes de Israel o culto a serpente como deusa da fertilidade e da sabedoria, e que influenciou Israel a presta-lhes culto, sendo infiel a Javé e por isso merecedor de ser expulso da terra (paraíso) que é dom dado pelo próprio Javé ao povo, como prometeu aos patriarcas. O Texto também pode conter influencias dos grupos de israelitas que viviam escravos na Babilônia sob influencias da religião do zoroastrismo, isto é, religiões astrais, dos astros.

            Esses dois capítulos tenta responder as perguntas: De que e por quem fomos criados? Porque fomos expulsos da terra? O que levou a quebrar a amizade com Deus? Por que tanto sofrimento? Por trás das palavras esconde-se a fé do povo, as respostas são dadas como num enigma que só pode ser vista a partir de dentro, de quem calça as sandálias do povo.

            Durante muito tempo na história da Igreja, a partir de Santo Agostinho esses capítulos deram origem a explicação do pecado original e margem para especulações e histórias sobre o  céu, o inferno, o fim de mundo, a condenação e a graça da salvação. Muita gente ainda hoje, crer e vive sua fé baseada nesse tipo de catequese e nunca “desconfiou” dessa forma de ler a Palavra.

            Os textos devem ser lidos e meditados na perspectiva do contexto em que foram escritos, com um olhar para o hoje da vida da Igreja, vendo o que nos tem a dizer para nós a partir de Jesus Cristo.

  1. Genesis 4-5: violência só gera violência

            Genesis 4 trata de conflitos no meio do povo numa linguagem mítica. No geral, esse capitulo 4 assemelha-se a Gn 2-3; 11,1-9, em gênero literário, vocabulário  e temas afins. Seu contexto é difícil de datar. Ele dá margem a várias possibilidades: retrata a situação do povo no período das tribos (no 12º  e 11º século a.C), ou do período do reinado (no 10º  e o 6º século a. C,) ou ainda de um período qualquer. O fato é que ele não cabe muito dentro do contexto do exílio, mas pode ter sido usado no exílio como releitura.

            O capitulo 4 é uma revisão da história do povo (releitura feita no exílio?) tendo como pano de fundo a família, o campo, a cidade e a religião. O capitulo 5 continua essa abordagem.

            Por trás dessas histórias e genealogias, temos o conflito entre a cidade e o campo. O pessoal do campo representado por Abel e Set denuncia a vida e o jeito de ser da cidade que é representada pelos personagens de Caim, Lamec e Henoc. Esses por sua vez querem dominar o povo do campo do qual depende. A “modernidade” de um é a morte de outro. Ai se estabelece o conflito entre irmãos que tem como conseqüência a “protelação da violência” dando continuidade ao “pecado” contra a vida (sangue) dada por Deus.  O texto é uma denuncia contra o espírito da cidade versos o espírito do campo.

            Deus situa-se na linha de Abel (v. 26), mas protege a vida de Caim, dando um basta (sinal) a violência. A religião passa a ter finalidade orante (v. 26) com a invocação do Nome de Javé e esse nome é sentido da presença de Deus no meio do povo. Caim tem chance de voltar e ser como Abel, isto é, a cidade pode continuar ser cidade mas com o espírito fraterno, solidário, contemplativo, religioso do campo. Esses valores, ela, a cidade, possui dele, o campo (Caim [cidade] e Abel [campo] são irmãos).

  1. Genesis 6-9

            Os capítulos de 6 a 9 são centrais no contexto de 1 a 11. Eles são obras de muitas mãos em épocas distintas e que conta não só com a tradição de Israel, mas também dos povos vizinhos. Neles, estão elementos culturais importados da Assíria-Babilônia, de Israel/Judá.

               Logo no capítulo 6, temos a corrupção da humanidade, a distinção entre “filhos dos homens” dos “filhos de Deus”, o arrependimento de Deus e a retidão de Noé; no capitulo 7, temos o dilúvio das águas; no capitulo 8, a continuação seguida de conclusão da ação; no capitulo 9, temos então a aliança de Deus com os salvos e a promessa de um final sem inundação.

            Desde 597 e 598 a.C, que uma multidão das elites de Jerusalém, a capital de Judá, foi deportada para a Babilônia, trabalhavam duro para sobreviver e entregar os tributos exigidos pelo império babilônico. Já no tempo dos assírios no século 8º as elites tinham conhecimento da história do dilúvio contada pelos povos babilônicos e essas histórias foram relidas no contexto da história do povo israelita. Isaias 8, 5-8s, nos dá uma pista de como se sentiram essas elites, ao serem expulsos da terra, como uma torrente de água sobre o mundo.

  1. Gênesis 10-11

            Os capítulos 10-11 são provavelmente de mãos sacerdotal com elementos javista.

O capitulo 10 é um quadro genealógico superficial onde as potencias são agrupadas pela suas afinidades ideológicas, mas que afinidades étnicas.  Por trás do personagem Jafé, está os povos da Ásia Menor e das Ilhas do Mediterrâneo;  do personagem Cam está os povos do Egito, Etiópia, Arábia e Canaã. O texto nos quer mostrar que há um projeto de cidade e retoma a história da humanidade dando continuidade a sua ideologia.

O capitulo 11, nos mostra que esse projeto é uma ambição humana contraria a vontade dos deuses, e no caso do povo israelita, de Deus-Javé. A narração é uma denúncia do campo contra cidade.  Babel é a Babilônia com sua política imperialista, demonstrada no símbolo de altas torres (zigurat) elevadas como um monumento à seu poder dominador. Ai o povo é disperso, sem identidade, coesão de fé, idólatra de si mesmo.

            Israel também vive essa experiência de dispersão e de exploração e explorador de seu próprio povo. Como conseqüência tem para si, um povo marginalizado, sem identidade no meio dos grandes impérios.

            A titulo de conclusão, o que nos ajudou essa breve reflexão? Como, respeitando a catequese das idades, podemos trabalhar nossas descobertas com as crianças, jovens e adultos no processo da catequese e evangelização permanente?

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[1] Schwantes, Milton. GÊNESIS 1-11: Vida, Comunidade e Bíblia. Cebi 2007. Série: Palavra na Vida (231/232).

[2] Mesters. Carlos. Orofino, Francisco. A TERRA É NOSSA MÃE:  Gênesis 1-12. Cebi 2007. Série Palavra na vida (235/236).

1 Comment on Gênesis de 1 a 11

  1. esse modelo cosmológico dos hebreus É O VERDADEIRO e sempre foi, a cosmologia atual é falsa, satânica e totalmente anti-bíblica, as agências espaciais sabem disso mas se eles revelarem a verdade toda ciência moderna será jogada por água abaixo e isso será um grande prejuízo a ciência moderna e para a imagem dos grandes e idolatrados astrônomos, matemáticos, físicos e cientistas! a bíblia está certa do começo ao fim tudo o que está escrito nela é verdade, não veja gênesis como “era isso o que eles imaginavam” NÃO PENSE ASSIM! gênesis é um livro inspirado por Deus e moisés escreveu o que Deus ordenou que ele escrevesse, muitos tem dificuldades de entender certas passagens da escritura graças a esse maldito globo terrestre, mas quando descobrirem que a terra é plana tudo fará o total sentido como: quatro cantos da terra, extremidades, confins, todo olho o verá, Jesus SUBIU ao céus e e desceu até as profundezas da terra! tudo isso só faz sentido numa terra totalmente PLANA, o jogo sujo da NASA é filmar a terra usando lentes fisheye (pesquise) e são essas lentes que causam a ilusão da curvatura! que a verdade prevaleça!

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