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Espiritualidade-II

existir2Em artigo anterior, introduzíamos o assunto, espiritualidade. Naquela ocasião deixamos no ar alguns questionamentos com os quais tencionávamos dar prosseguimento ao nosso diálogo partilhando com você algumas impressões. Vejamos.

            O que é espiritualidade? Eis o nosso artigo presente.

            Espiritualidade é algo que tem haver com tudo e com todos. Mesmo que muitas pessoas sejam religiosas, outras não, e outras mais tenham lá suas convicções, espiritualidade tem haver com tudo e com todos. Ela é inerente às suas preferencias e convicções, apesar de também se expressar por meio de tais meios.

            Apesar de religiosos e pessoas afins tenham a espiritualidade por conta em suas vidas e em sua linguagem cotidiana, ela ultrapassa os limites da religião ou de qualquer “outro departamento” de nossas vidas.

            Como o ar que respiramos; como o alimento e a bebida que necessitamos; como o amor,  a sexualidade, a amizade, o dinheiro, etc, que necessitamos; a espiritualidade é algo de que necessitamos existencialmente, socialmente, religiosamente, de modo pessoal e coletivamente. Ela não é inerente a essas e outras realidades da nossa vida. Ela está junto, faz parte.

            Uma pessoa pode “materializar”, incorporar, expressar de modo perceptível à espiritualidade em sua vida; outras pessoas podem e vivem suas vidas sem se dar conta da existência da mesma; outras, ainda, podem expressá-la com maior ou menor grau, com maior ou menor intensidade. E outras podem achar que não tem espiritualidade e compreender que isso é coisa de religião tão somente. Mas, independente do que pensem, ela vai está lá em suas vidas, porque ela faz parte de um todo da vida e da vida toda.

            A religião tem várias leituras e nomes para expressar a ideia da espiritualidade. A tradição católica romana nesse sentido tem um rico patrimônio poético, cultural, filosófico, teológico e histórico de mais de dois mil anos.

            Também não fica atrás tradições como do budismo, hinduísmo, e tantas outras mais recentes.

            Porém, no geral, como alguns dicionários, tradições e grupos definem a “grosso modo”, espiritualidade?

            No geral a espiritualidade é entendida como algo do espírito contrário a matéria. Algo que está ligado a dimensões mistéricas mais profundas. De outro modo também é compreendida como qualidades a serem adquiridas com certo esforço pessoal; e há aquela concepção cuja ideia remete a um dom recebido, gratuitamente. Não fica atrás também a ideia de que a espiritualidade também é uma manifestação ou sensibilidade para com o sobrenatural; e em alguns casos, é entendida ainda como crença e práticas religiosas. Por fim, ainda há aquela outra ideia que define a espiritualidade como sendo qualidades humanas elevadas, em oposição a uma ideia meramente material e cheia de conjecturas.

            O que diz a tradição judaico-grega-crista? Olhando mais a fundo a tradição judaico-grega-cristã ocidental encontramos alguns elementos bem originais. Nessas tradições a palavra ‘espiritualidade’ declinação da palavra ‘espírito’ evoca ideia e sentido bem preciso e tem haver com existencial, movimento dinâmico, sopro, vento, vida mesmo.

            Do hebraico, Ruah, é a palavra cuja ideia e significado tem haver com o sopro existencial e dinâmico, com a vida em sua essência (Cf. Gênesis 1, 2; 2,7; Sabedoria 1,7). E nesse caso, com a Origem das origens mais genuína: Deus, mesmo. Então, espiritualidade tem haver com a ideia de que “Em Deus somos e nos movemos” (Cf. At 17,28) e nesse caso, tudo, exatamente tudo, é ou está impregnado do cheiro de Deus.     Na tradição grega, espirito, espiritualidade tem haver com a palavra pneuma. Essa por sua vez nos remete ao ar, ao sopro vital, ao vento em movimento e consequentemente a algo axiomaticamente espacial, existencial e de algum modo a algo concreto, porém intocável.

            É dessa e de outras ideias de modo geral que temos da tradição grega os conceitos de corpo, alma, matéria, espírito, e que perdura nas sociedades e tradição ocidental até hoje. Mas, mesmo que esses conceitos e ideias tenham uma lógica e categorias de pensamento próprio e evoque a cultura grega, a palavra pneuma (espírito) traduz de certo modo as ideias básicas do ruah hebraico nos fazendo compreender que a espiritualidade tem haver com algo realmente existencial e de certo modo sobre-natural.

            Na tradição latina, cuja língua o latim a representa, a palavra espírito e espiritualidade tem haver com algo mais elaborado e tardio, evoca Deus e suas leis no sentido de completude da vida humana e da plenipotência do universo. Ou seja, Deus preenche a vida humana e sua criação através das leis e do cumprimento de sua vontade expressa nas Escrituras Sagradas. Nesse caso, a espiritualidade consiste em viver  “segundo o espírito” de Deus, contido nos “textos sagrados”. Tal pensamento e pratica nos remete à Ética como elemento chave da Lei (Aliança). Vivê-la é espiritualidade.

            Mas, na história do pensamento ocidental não há uma única ideia de espiritualidade, mas vários conceitos, ideias e praticas cuja leitura são variantes e de uma riqueza muito grande. Contudo, sempre há uma leitura que se sobrepõe com força segundo contextualização sócia, politica, cultural e religiosa. Essas contribuições permite-nos, por exemplo, entender que, a tradição latina  é muito forte e viva. Através dela, a espiritualidade ganhou traços, contornos e elementos fortes e rebuscado de maneira tal que até bem pouco tempo, a espiritualidade foi entendida como algo meramente restrito ao espaço sagrado do templo e da religião enquanto portadora e voz como tal. Mas é interessante dizer que, apesar da espiritualidade vir e ser concebida pela tradição religiosa, não se nega essa tradição, mas devemos entender que ela é bem mais aquém, pois nos toma por completo a vida toda e toda vida.

            Segundo alguns escritores, entre os quais me recordo do alemão Karl Rahner, ele dizia que, no mundo pós-moderno as pessoas seriam profundamente espirituais ou não. Falava evidentemente da cultura cristã, mas que podemos compreender sua fala de modo mais ampliando.

            De fato, houve um alvorecer, um maior desempenho e popularização da religião no século XX. Grupos redescobriram a espiritualidade com muita força. Até a ideologia do capital percebeu que elementos da espiritualidade deveriam está em sua pauta, se se quisesse entrar na casa e na vida das pessoas. Muitos dos produtos em suas propagandas tiveram apresentação e atributos quase que divinos, dando a entender que, adquirindo e usando-o as pessoas teriam aquelas sensações e momentos felizes como a própria pratica da espiritualidade ou que a ela se assemelhava.  Algo bem psicológico.

            As pessoas precisam abrir os olhos. Entender os complexos da vida pelos quais passa no mundo moderno com todas as suas sutilezas, desafios e esperanças. Precisam sair do seu ‘mudinho’ narcisista e enxergar além do próprio umbigo e bolso. A espiritualidade não é solução dos problemas, mas com certeza nos ajuda a sermos pessoas melhores se a compreendemos do jeito certo. E não sei o jeito certo, isso é relativo e cada um há que achar, entender e fazer seu leitura do ‘jeito certo’. É claro que há princípios, critérios, experiências, modelos, etc.  O fato é que, não podemos nos privar desse elemento tão importante que é a espiritualidade, ela certamente nos ajuda como outro elemento qualquer, a termos vida boa e digna.

            Termino aqui esse artigo dizendo que, tem muita gente no meio do povo que do seu jeito é profundamente espiritual. O povo sabe, o povo vê. Não estão na mídia, não estão nos grandes jornais, ou nos templos das religiões, mas existem e são generosamente espirituais. Podem não ter saberes e nem conhecer a linguagem religiosa ou até mesmo das faculdades, das mídias atuais, mas  sabe com seu jeito tecer a vida, a sabedoria cotidiana e aquelas qualidades cujo conceito pode ser definido como espiritualidade.

            Recordo ainda que há espiritualidade e espiritualidades, e o capitalismo sabe disso e tira proveito. É só ver nos jornais e TVs. De que espiritualidade se trata?

Continuaremos depois…Obrigado.

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