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Espiritualidade e Capitalismo

dinheiroEm artigos anteriores, falando de espiritualidade de modo geral ao mesmo tempo em que tecemos algumas linhas de reflexão e conceituação da mesma, insinuamos sua utilização por parte da ideologia capitalista nos mais diversos elementos que o constitui e de modo prático, na veia arterial do mesmo, o mercado. Naquela ocasião dizíamos que já existem empresas que usam da espiritualidade para conquistar suas metas e objetivos.

Isso não é de hoje. Se olharmos séculos atrás, quem conhece história sabe, o capitalismo teve o avanço e o vulto que tomou, graças ao movimento e a ética protestante, principalmente nos países que o aceitaram como norma de fé crista. Diferentemente dos países de matriz católica, que, mesmo aceitando o capitalismo, não teve a mesma “sorte” de o “batizar” com os valores cuja espiritualidade estava no centro. Mas,  isso é uma outra e longa história, e não enveredaremos por esse caminho.

Hoje, a pergunta que se faz é: há uma espiritualidade capitalista? E essa pergunta não é simples e nem fácil de responder. Existem varias leituras e uma série de fatores a se considerar. O tema é quente. Basta ir ao Google e rapidamente se nos apresenta milhares de matérias e uma centena de blogs e sites.

Entretanto, parto do ponto de vista que, como já tive a oportunidade de dizer anteriormente, a espiritualidade tem haver com Deus e as origens das coisas, com o âmago das coisas em si. Ela constitui aquele sopro, aquele espirito cuja ideia caracteriza uma ação axiomática e existencial, munida de valores e um profundo senso de conexão com as coisas, com o “tudo e com o nada” (São João da Cruz – místico espanhol do século XV). É um “espírito” que dá força, que move e dá direção a uma pessoa, grupo ou sociedade. Enquanto tal, seu proposito é mais que meramente matéria e satisfação de pessoas ou grupo, com algo puramente consumista. Há algo de mais profundo e visceral.

É ai que podemos entender que, o capitalismo e espiritualidade genuína de certo modo não combinam e são antagônicos. Ele não tem espiritualidade enquanto consumo, não é portador de vida enquanto algo essencialmente existencial. Mas, concebe uma espiritualidade enquanto ideologia que move a sociedade, ainda que nefasta para fins de consumo tão somente. Da espiritualidade alheia o capitalismo sabe usar e tirar proveito para seus fins. Exemplo disso é o período natalino e pascal na cultura ocidental. Como ele se faz presente com sutileza e se apropria de um discurso e sentimento religioso e o transforma usando-o a seus propósitos.

E isto nos faz lembrar  Max Weber. Ele sintetizou no início do século XX o espirito que move as sociedades modernas: o capitalismo. E o símbolo máximo desse espirito: o dinheiro. Dinheiro que alimenta e instiga as pessoas, moldando o seu caráter. Produtos cada vez mais sofisticados e ultramodernos elevam e atiça o desejo e o consumo. O desejo cria necessidade, a necessidade forja a felicidade (uma falsa e relativa felicidade – poderíamos acrescentar de certo modo). A felicidade produz bem-estar, o bem estar conduz ou pode conduzir dentro de certa lógica a um ciclo vicioso e cada vez mais crescente. Não estamos julgando ou criticando se isso é bom ou mal, apenas descrevemos uma realidade cuja ideia não faz parte e é incompatível com a espiritualidade de certo modo. Pois, cada vista de um ponto é um ponto de vista, e há quem defenda o contrário do que digo aqui.

O fato é que, o mundo está passando por grandes transformações em todos os sentidos e a sociedade que respirava a cristandade de um momento para outro se vê livre dessa influência e de algum modo entra naquele espirito cujo Dostoiévski assinalava como síntese perfeita, quando, por meio de Ivan Karamazov, diz: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Só então, na virada do século XX para o século XXI é que o próprio mundo, a própria sociedade, o próprio capitalismo se deu conta de seus limites, dos limites da Terra, e de sua fragilidade. Percebeu que nem tudo é capital. Então é preciso revestir o capital e tudo o que ele significa, de uma espiritualidade, de algo que apesar de satisfazer as pessoas em sua essência espiritual, ponha o capital e sua ideologia no centro, mesmo que para isso mude a sua linguagem, mude a sua roupagem. É preciso seguir por outro caminho, sem perder o foco, pensa a ideologia dos que sacralizam o capital. É preciso espiritualizar o capital, seu templo, a economia, revestir de sacralidade seus produtos, e fazer seus efeitos se esvair na vida das pessoas.

Pois bem, “se antigamente, o foco estratégico das organizações centrava-se na capacidade mercadológica, produtiva, financeira… que se esqueciam do mais importante: “as pessoas”, as que produzem o que é comercializado. Hoje, capacitá-las, aumentando-lhes a consciência profissional, o comprometimento, a competência, o envolvimento, a satisfação, a inteligência espiritual dentre outros fatores, é o ponto principal para a concretização dos resultados.” Diz Leontina Rita Acorinti Trentin no seu artigo sobre “A sociedade capitalista e suas mudanças!” no site Brasil Escola.

De fato, a espiritualidade se tornou no mercado, para o mercado e com o mercado, algo “rentoso”  e “saldável”. É preciso, pois, identificar os valores, virtudes e efeitos dessa espiritualidade. Identificar até que ponto ela realmente é pertinente e se põe em dialogo com todas as outras tradições mais antigas. Até porque, se espiritualidade tem haver com Deus e com o existencial sopro dinâmico da vida, provavelmente, a espiritualidade capitalista está longe e muito aquém de ser cristã, ou qualquer outra não-cristã. Porque o evangelho e os valores que ele apregoa (como de outras tradições bem mais antigas) demonstra claramente o valor incondicional da vida, do ser humano e do cosmo como inviolável, não comercializável.

E a espiritualidade vai nesse sentido, ela dá sentido de vida. Um sentido que a ideologia capitalista e econômica não conhecem. Ela Move-nos a entranha para algo mais que meramente casual, furtivamente material e consumista. Ela eleva-nos à condição mais profunda do humano, e isso o capitalismo enquanto economia e ideologia não fazem, não tem força por si. É ilusão.

Existe espiritualidade ou valores espirituais no capitalismo isso é inegável, mas tais valores “espirituais” não são compatíveis com uma espiritualidade genuína e muito menos é compatível com a espiritualidade cristã.

Mas de que espiritualidade estamos falando? O que seria uma espiritualidade genuinamente cristã?

Continuemos esse diálogo noutra ocasião em breve. Obrigado.

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