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Corpo e Alma são inseparáveis

             corpoealma  Origem e história do modelo antropológico binário (dualista) – separando alma e corpo

             A origem deste modelo nada tem a ver com a revelação bíblica, mas, sim, com uma religião pagã do século VII ª C , a assim chamada "Religião Órfica da Trácia", na Grécia antiga. A partir desta origem, a concepção binária ou dualista do homem passou por toda uma história de evolução e adaptação, até finalmente se fixar também no cristianismo.

Desde os primeiros séculos da era cristã, essa concepção se tornou o modelo dominante no cristianismo, sustentado pela filosofia do neoplatonismo e pela ideologia religiosa da gnose e de seu dualismo cosmológico.

As várias etapas desta história de absorção de concepções dualistas estão representadas no esquema:

Séc. VII a.C – Religiões órficas da Trácia —

Séc. VI a.C – Pitágoras – Dualismo ético

Séc. IV a.C – Platão – Dualismo ontológico

GNOSE – Dualismo cosmológico (origem: Pérsia) sécs. II a.C e VI d.C

Doutrina Cristã

Séc. II d.C – Maniqueísmo Neoplatonismo

Séc. IV d.C – Agostinho

Séc. XVII d.C – Dualismo cartesiano

É importante frisar que, a partir do século IV d.C, sobretudo depois de Agostinho, a compreensão cristã do destino humano após a morte baseia-se, cada vez mais, no modelo dualista helênico. Este modelo antropológico já era o dominante dentro do império greco-romano antes da era cristã, e depois do desaparecimento deste império, continuou dentro do pensamento cristão e permanece até os dias de hoje. Ele se fixou de tal maneira, que muitos cristãos estão convencidos de que estamos diante de um fato de revelação divina. Pensam que a base do modelo antropológico dualista seria a própria Bíblia.

Contra tal idéia é importante lembrar que o modelo antropológico tem suas raízes numa cultura alheia à da Bíblia. Ele entrou no cristianismo não por ser revelação divina, mas por razões culturais e ideológicas, ligadas a todo um processo de aculturação do cristianismo dos primeiros séculos.

O modelo dualista-binário do homem, conforme o qual este homem é composto de corpo e alma ( e a alma pode viver independente do corpo), não tem a sua raiz na Bíblia, mas na cultura pagã do helenismo.

O termo “alma” aparece centenas de vezes nas traduções do Antigo e Novo Testamento. Entretanto, com exceção dos poucos textos do judaísmo tardio, claramente influenciados pelo helenismo, Quando a Bíblia fala da alma, nunca quer designar com esta palavra, um princípio espiritual autônomo que poderia ser separado do corpo. Dentro de uma visão integrativa, os textos bíblicos apresentam o homem sempre como unidade indivisível, para quem a alma garante a potência de ser para o absoluto.

Os textos bíblicos em que se faz uma justaposição entre corpo e alma, foram, no passado, muitas vezes interpretados de maneira dualista e a partir de um enfoque da filosofia helênica. Isso, no entanto, é errado.

Exemplo típico: um trecho do Evangelho de Mateus, onde uma interpretação dualista falsificaria totalmente aquilo que a Bíblia quer dizer. Neste e em todos os outros textos nos quais aparecem as noções corpo e alma, a Bíblia não faz uma concepção binária do homem. Ela não separa corpo e alma como dois princípios opostos: ela, pelo contrário, já se baseia numa visão muito “moderna” da pessoa humana, compreendendo esta pessoa como um ser único, cuja integridade, exatamente por causa da sua alma, nunca poderá ser destruída e dividida.

“Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode destruir a alma e o corpo na geena” (Mt 10, 28).

O muito prestigiado manual de exegese “Regensburger Neues Testament” (1986, p 228) deixa transparecer isso de maneira bem clara:

“O texto não pressupõe uma alma sem corpo que sobrevive na morte, mas esclarece que Deus pode manter a vida inteira do homem também além da morte. (Psique não significa “alma” no sentido greco-helênico, mas a energia vital no homem.)”

A antropologia de Tomás de Aquino confirma a concepção bíblica

Todos os estudos da antropologia do grande filósofo Tomás de Aquino mostram uma concepção do homem que, por sua vez, também não sustenta a idéia de um dualismo conforme a filosofia do helenismo. Em vez de separar o homem em corpo e alma, Tomás de Aquino, já no século XIII, descreveu o ser humano como uma única substância, onde a alma é a Forma do Corpo. O ser humano é uma única substância indivisível.

Como uma única substância não pode ser dividida e separada sem que deixe de ser aquela substância, esta concepção do filósofo contribuiu, por sua vez, para a superação do modelo helênico e para a redescoberta da concepção bíblica do ser humano. (O Concílio de Viena adotou esta concepção, falando claramente da alma como “a forma do corpo” (DS 902))

Karl Rahner mostra no seu grande artigo sobre a alma escrito na enciclopédia Sacramentum Mundi, que também o Magistério da Igreja, no Concílio Vaticano II, superou o esquema antropológico de corpo e alma separados.

A constituição Pastoral Gaudium et Spes não fala mais do homem como um ser dualista, mas o define de maneira bem clara como “corpo e alma, mas realmente uno”.

O Cardeal Joseph Ratzinger, no seu artigo sobre a ressurreição do corpo, escreve de maneira explícita que este termo deve ser compreendido como “ressurreição da pessoa, não no sentido de uma corporeidade isolada da alma”.

Na dimensão que, teologicamente, chamamos “eternidade”, não existe tempo no sentido como nós o conhecemos. Mas, quando não há tempo, não se podem passar anos e séculos, no decorrer dos quais a alma possa aguardar a futura chegada do Juízo final, para de novo se reunir com o corpo.

Onde não há tempo não pode haver passagem do tempo, rumo ao futuro. Consequentemente, também não é possível que uma alma, sozinha, aguarde na eternidade a ressurreição do corpo. Sem tempo, não há nada que se possa aguardar num futuro qualquer; pelo simples fato de não existir mais um futuro temporal.

Mas é exatamente isso que o modelo tradicional (alma esperando a ressurreição) pressupõe. A contradição lógica inerente a esse modelo vem sendo hoje, porém, cada vez mais criticada.

Como a ressurreição do corpo, depois da morte, não pode acontecer num futuro temporal, porque na eternidade, tal futuro temporal não existe, a única solução é voltarmos à idéia profundamente bíblica da eternidade como “simultaneidade total”.

Eternidade significa um “agora simultâneo”. E neste “agora” de Deus, não há nada que se deva “esperar” no futuro. Tudo é agora. Isto significa que, no momento em que o ser humano entra na dimensão da eternidade, ele entra numa dimensão de simultaneidade, na qual tudo aquilo que nós só podemos imaginar em termos de sucessão no tempo acontece num mesmo momento simultâneo e atemporal.

Com bases nestes pressupostos, formulou-se, a partir dos anos 70, nova concepção daquilo que acontece à pessoa humana na morte, superando o modelo temporal.

    * A ALMA NUNCA SE SEPARA DO CORPO – EM NENHUM MOMENTO A ALMA FICA SEM CORPO

    * A RESSURREIÇÃO DA PESSOA INTEIRA ACONTECE NA MORTE

    * NÃO PODE TRANSCORRER TEMPO ENTRE A MORTE E O JUÍZO FINAL, QUANDO ACONTECE A RESSURREIÇÃO DO CORPO. (Pois o tempo não existe mais)

Textos extraídos do livro:

Blank, Renold.  “Escatologia da Pessoa – Vida, Morte e Ressurreição” .Editora Paulus;2000. (página 78-79)

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