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As Fontes Literárias do Pentateuco

rolobiblicoAs fontes literárias encontradas no Pentateuco (Gn, Ex, Lv, Nm Dt) segundo Norman K. Gottwald entre outros especialistas, nos informam que são fontes advindas de quatro escolas-situações distintas da história do povo bíblico, e que a partir de um determinado momento foi fundida numa só obra pelo redator (ou redatores) final, dando coesão a séculos de história relidos sob enfoques diferentes, em situações diferentes, chagando a um consenso de modo que deu origem ao texto canônico que hoje temos em nossas mãos.

Essas fontes, denominadas segundo os especialistas, sobretudo os alemães, de Javista, Eloísta, Deuteronomística e Sacerdotal estão mescladas, formando uma unidade harmônica e coesa nos textos atuais de maneira tal que além de passar despercebida pelos leitores comuns, é muito difícil de detectá-las, precisando de muito estudo e treino inclusive para peritos e pessoas com algum estudo mínimo da Bíblia.

Há estudos publicados por especialistas, pesquisadores, pessoas que passaram anos, observando, estudando, analisando, averiguando, montando o quebra cabeça e situando o texto nos seu contextos, facilitando o acesso à teólogos, biblistas e pessoas interessadas no assunto. Por que isso? Porque queremos ter certeza de como as coisas aconteceram, porque queremos melhor explicitar as idéias, formular e responder questões que aparecem no decorrer dos estudos e do cotidiano, porque queremos ser fiel àquilo que cremos e sobretudo porque achamos importante dar razões de nossa fé aos que nos perguntam.

Então, o que podemos dizer a respeito dessas fontes?

A fonte Javista (porque chama a Deus de Javé, sigla J) foi composta provavelmente por volta de 960-930 a.C., durante o reinado de Salomão. Alguns datam sua origem um pouco mais tarde. Podemos encontrar textos dessa fonte nos livros de Gênesis, Êxodo e Números. Também é possível encontrar textos dessa fonte nos livros de Josué e Juízes.

No geral, essa fonte trata da história israelita desde a criação, passando pela experiência do êxodo até a posse de Canaã. Essa história retrata o pensamento do povo do sul (Judá) e não há como identificar seus autores a não ser do que se sabe ser das tribos sulistas e côrte. A fonte Javista conta a história no estilo de grande “Epopéia Nacional” quando todos já têm marcados em sua memória histórica essa história assim advinda da tradição oral secular relida em contexto dos reis, privilegiando as tribos do sul, como já foi dito.

A fonte Eloísta (porque chama a Deus de Elohim, sigla E) foi composta no período de 900-850 a.C., depois da separação entre nortistas e sulistas (Judá x Israel) no reino do Norte. Ela retrata as mesmas coisas da fonte sulista e nos mesmos livros, porém, com uma nova perspectiva e olhar, próprio do povo nortista Israel. Propositalmente, eloísta é advindo do nome de Deus anterior ao êxodo, onde a divindade é invocada como Elohim, o Deus Altíssimo. Sua narrativa dá ênfases a locais (santuários, montes, locais sagrados) onde é forte a experiência de suas lideranças embrionária (patriarcas, profetas) com a manifestação divina. Também é enfatizada a aliança com o povo (ao contrário da fonte javista que dá ênfase ao reinado e templos) enquanto coletividade. Esta fonte valoriza mais o campo, a natureza, as tradições primitivas anterior a monarquia, as relações interpessoal com a divindade (contrario ao javista que é mais estatal, precisa de mediadores) e as relações familiares, etc.

A fonte Deuteronomística (que significa, Segunda Lei, sigla D) foi composta ainda durante o reinado do norte. É uma fonte refinada, mais critica. Quando o reino do norte em 722 a.C., desmoronou, a tradição Deuteronomística foi conservada por simpatizantes do sul. Um século mais tarde, em 622 a.C., ela veio à torna com a reforma religiosa no reinado do rei Josias (sul) que tratou de fazer a reforma segundo as leis contidas em Deuteronômio 12-26. Nessa fonte é forte a releitura da história do norte a luz da aliança e o momento em que o sul esta passando, de modo que poderá ter (e teve) o mesmo fim: a destruição e exílio. Em sua releitura da história a ênfase é muito grande na pré-história israelita desde Moises até o inicio do reinado, dando valor àquilo que constitui o povo e a terra como dom/herança sagrada de Deus.

A fonte Sacerdotal ( que tem como sigla P, pois em alemão Priester quer dizer Sacerdote) foi composta no fim do exílio e o começo da restauração entre 550-450 a.C., pelos sacerdotes. De Gênesis, Êxodo, passando pelo Levítico e Números, os textos dessa fonte é fortemente constituído de genealogias, observância do sábado, leis religiosas, circuncisão, tratamento das enfermidades, o convívio social, o jeito de cultuar a divindade, a casta sacerdotal, símbolos religiosos e interpretação da história a partir da mediação sacerdotal. Sua influencia é muito forte na restauração (nos tempos de Esdras, Neemias…) e na conservação dos costumes morais, religiosos.

As fontes JEP logo cedo foram combinadas em uma só, provavelmente pelo redator de P, e mãos outras, mais tardia.

Para os outros escritos que compõe o Primeiro Testamento ou Antigo Testamento, houve também grupos de redatores, escolas e discípulos de algum personagem importante, como alguns dos profetas. Também houve a tradição oral que muito conservou na memória do povo essas histórias que foram sendo passadas, lidas, relidas em contextos distintos até como se encontram no texto atual.

É importante frisar ao nosso leitor que, apesar da ciência ter avançado em suas descobertas sobre a analises dos textos bíblicos, podendo explicar muita coisa e com grande mérito, devo salientar que, mesmo havendo explicação não esgota o tesouro, o significado e a força do texto como reserva de sentido, e nesse caso, como palavra de Deus. Inclusive, já publicamos uma matéria sobre esse tema em nosso site. O mas importante no texto não é saber quem foi, quando foi, porque foi, que material usou, o que estava por trás, para nos deixar interpelar pela palavra de Deus, mas, sim, ouvir a mensagem que estar “por trás das palavras” e nos comover em atitude de conversão, de mudança de vida e transformação. Os estudos e explicações ajudam a explicar o texto fisiologicamente (texto no contexto), nos dar uma clareza histórica, filosófica, cultural, religiosa e exegética muito grande, de um alcance imensurável, porém, não nos faz enxergar o “miolo”, o “cerne”, o “coração” do texto, esse só temos acesso pelos olhos, ouvidos e coração da fé.

Deixo para os nossos leitores alguns fragmentos onde podemos ver as fontes JEDP, com certa habilitante… treinando a leitura, procurando as diferenças, relendo o texto marcando com cores que ressalte tais diferenças, e… verás a sabedoria de Deus.

O exercício abaixo podemos encontrá-lo em: Os Homes e a Mensagem do Antigo Testamento. Autor: Peter F. Ellis traduzido por tradução de Flávio Cavalca de Castro, CssR. Editora: Santuário. 1985.

(P) Gn 1,1-2,2a

(J) Gn 2,4b-4,26

(J) Ex 7, 14-15a. 16-17a.18.21a.24. (P) Ex 7, 15b. 17c. 20b. 23a. (E) Ex 7, 19-20a. 21.b-22.

Bom exercício!

1 Comment on As Fontes Literárias do Pentateuco

  1. Valeu… Esse material sera muuuuito útil para mim!!!! Clareando as ideias 🙂

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