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A Revelação Divina

Introdução geral

            A Revelação divina de Deus aos seres humanos na tradição ocidental judaico-cristã aconteceu dentro de um processo que se estende por um período de mais de dois mil anos. Primeiro, na tradição judaica ele revela-se como Um, o Único, o Presente, o Eterno e Transcendente que está na História do Povo. No entanto, quanto a sua natureza e o significado dela só foi compreendida em sucessivas etapas até chegarmos à compreensão que temos hoje. A revelação aconteceu de modo prático, ou como costumo dizer, alegoricamente, foi um “corpo a corpo” entre o divino e o humano. O instrumento dessa relação foi a palavra. Deus se achega e fala ao homem como a um amigo (cf. DV 2; CR 33-35), de modo que este compreende bem e intui se tratar da uma divindade.

            Essa relação entre Deus e o homem foi baseada em interesses comuns, onde conforme o contexto, Deus revela-se de modo inequívoco e o homem a cada experiência vivida (Gn 12, 1-9; 17,1-8s; 18;28) com esse Deus, dá-lhe nomes que além de descrever o significado dessa realidade a transcende. Assim podemos entender nomes como: El Shadday (Deus Todo Poderoso); El Elion (Deus Altíssimo); Elohim (Criador); Adonay (meu Senhor).

            Essa proximidade de Deus com o homem, torna o ser humano mais aberto ao mistério e ao transcendente, desse modo nasce o culto e a relação passa a ter nova categoria, a aliança. A aliança é uma forma de fazer com que haja uma relação de fidelidade, de parceria e de troca de favores, onde o que importa não são os favores em si, mas o seu significado mais profundo dentro dessa relação que é o estreito laço de amor e amizade. Deus propõe um projeto que vai revelando e desvelando aos poucos conforme o homem possa compreender, pois é algo grande e de futuro, enquanto o homem responde, executando-o conforme suas capacidades, contexto e dinâmica da vida. Dessa forma um ajuda ao outro a construir o que realmente importa: a vida. Daí o homem se descobre e descobre toda a Natureza, a História, a Vida, como um grande ato de amor de Deus, do qual ele também é depositário e também agente causador e receptor dessa graça de Deus. Assim, vai acontecendo o processo pedagógico da Revelação de Deus.

            Nos passos seguintes, na história do êxodo, na vida tribal, Deus é aquele que se faz libertador, se faz guerreiro através dos seus enviados, conforme o exprimi a linguagem humana da época. Depois, nos passos posteriores, sob o reinado, ele manifesta-se pela profecia e seus profetas. Sua presença e relação com o povo acontecem num outro nível: às instituições da Lei, dos Profetas e dos Reis.

            No período do exílio, da volta do exílio e com o tempo da restauração até o tempo de Jesus, há uma nova compreensão de Deus e seu projeto na vida do povo. Ele agora é entendido como O Eterno e a relação do homem com o divino acontece mediante rituais religiosos profícuos e incessantes. Isto por causa da experiência que Israel vivenciou no cativeiro com os outros povos. Ele, Israel, agora alarga sua visão de Deus e ao mesmo tempo estreita essa visão e relação, mantendo um vínculo quase que por casuística.

            Em toda essa trajetória, Deus é o Deus do povo e o povo é povo de Deus.

            Com a existência terrena de Jesus e logo após ele, toda uma multidão de discípulos, concebe Deus a partir da categoria de Pai. Ou seja, Deus é um pai, amoroso, misericordioso, de coração materno. Isto não é prerrogativa de Jesus, pois os profetas já insinuavam essa linguagem, no entanto, sua concepção e originalidade encontram em Jesus e no cristianismo sua mais genuína prerrogativa.

            Durante os tempos que se sucederão, com a filosofia e as ciências humanas e teológicas, Deus em seu grande mistério e como nos é revelado torna-se  uma divindade cada vez mais distante e ao mesmo tempo perto do homem, porém sua forma de comunicação com o humano vai  ficando cada vez mais resumida e a única forma de entender sua comunicação é através da pessoa e mensagem de Jesus, quando não muito, através dos acontecimentos ou pessoas e sinais mais concretos. Porém essas formas de comunicação são cada vez mais escassas, principalmente se levarmos em consideração as formas testemunhadas pelos textos dos redatores do Primeiro e do Segundo Testamento.

            Não é que ele não se comunica ou que tenha silenciado, mas é que na evolução humana desses últimos dois mil anos, o ser humano perdeu de certa forma “o manejo” de como se relacionar com ele e ficaram as cegas quanto ao seu jeito de se comunicar com o divino, apesar de nesses últimos séculos o culto e as atividades religiosas  terem se multiplicado aos milhares.

            Hoje, Deus fala com o homem, como sempre falou. A questão talvez seja que, não estamos mais enquanto humanos, criadores das mais diversas formas de comunicação e expressão, não estamos mais sabendo ler pelas entrelinhas sua fala, uma vez que no mundo e na vida complexa que criamos atualmente tenhamos toda uma gama de sabedoria da comunicação mas não sabemos como lhe dá com o simples e o mais obvio da comunicação na qual Deus sempre a usou, a palavra. Comunicar-se é uma arte e essa arte requer toda simplicidade possível, despossuída de poder, ambição e posse. Talvez o problema esteja ai. Porém, Deus nunca e em nenhum momento deixou de se comunicar com o ser humano. E essa comunicação é uma comunicação de Sua própria Pessoa e do Seu amor.

Os três eixos da revelação segundo a Tradição Cristã

            Para nós cristãos, é imperativo que Deus se revela na vida e na história, principalmente na vida e na história do Seu povo eleito. Contudo, três elementos dessa história nos apontam para uma revelação plena e nos abre os olhos para o fim último da existência: a criação, a encarnação e a redenção.

 1. A criação.

A criação é o elemento eficaz da comunicação e da revelação de Deus à humanidade. Ele nos revela a Si mesmo por meio dela. A criação é sacramento do amor de Deus para conosco. A criação inteira é mais antiga que nós, os humanos. Somos responsáveis por ela, enquanto “dominadores”. Esse “dominai e submetei-a” do Gênesis foi entendido como “possuir, consumir e destruir”. Só a partir do século XIII com São Francisco é que houve uma compreensão e uma interação de irmandade entre os seres  humanos e toda a criação, mas é no século XX, com a cosmologia moderna que nos damos conta de que esses termos significam “cuidar, zelar, cultivar, guardar” uma vez que não só a Terra, mas toda a Criação é um organismo vivo e integrado.

Deus nos fala através da criação, ela é a “Carta” de Deus para nós, já dizia os antigos, mas nós de alguma forma a danificamos de modo que ficou incompreensível sua leitura e mensagem, então, Deus em seu imenso amor providenciou uma forma de comunicação.

            Hoje a criação é referencia para o homem buscar e se comunicar com Deus. Pois a criação é um ato de amor trinitário: Deus Pai cria por amor ao Filho; o Filho salva, redime, liberta a criação de toda a lama do pecado ( uma vez que a criação é viva, dinâmica, livre e tem capacidade de agir e interagir por conta própria) por amor ao Pai; e esse amor de ambos em multo relacionamento presente na criação é o Espírito Santo  que na criação, santifica, limpa, dá consistência, faz ser perene, por amor ao Filho e ao Pai. Ambos os três uma única substancia e três personalidades presente cada um do seu jeito, com sua característica própria, está presente na criação onde o ser humano é o ponto de convergência e divergência num movimento continuo. É isto um mistério de fé: Tudo o que foi criado, foi criado por amor. Na criação e no ser humano encontramos Deus. No entanto, sua presença e amor ai não se encerram, mas vai além, porque Deus e seu amor não são matéria, não é limitado, mas é espírito e como tal preenche todos os espaços, o tempo e a história, é eterno, e o homem e a criação são limitados, mas mesmo assim ponto de encontro e de partida do amor. Eis a revelação de Deus na criação. Deus criou tudo o que existe e existirá por amor e o homem faz parte desse amor tanto como beneficiário como sacrário onde o Deus uno e trino faz Sua morada e lá vive por analogia sua relação trinitária de amor imanente.

            Então, na criação vemos a Deus, entramos em comunhão com ele, descobrimos um pouco mais de nós mesmos e da presença de Deus em nós. E essa presença e amor transcendem para além da materialidade.

 2. A encarnação

Dentro do mistério da revelação de Deus, a encarnação de Jesus é o que de mais concreto há na relação divina com o humano em forma e linguagem humana (Fl 2,6-11), do ponto de vista da fé. Jesus e toda sua existência são o que de mais divino há no humano e o que de humano há no divino.

Sua vida é marcada pelo bem (At 2,22-24), sua prática é boa nova para todos, sua imensa misericórdia é demonstrativo da ação e do amor de Deus, o Pai. Assim, Jesus viveu a vida dos homens do seu tempo. Foi uma vida encarnada, com suas limitações de tempo, de espaço, de época e de cultura. E essa encarnação foi de Deus o máximo de sua santa Personalidade em estabelecer com a criatura uma comunicação efetiva e afetiva. Dessa realidade o humano sai mais forte e beneficiado de maneira tal, que por um instante sua condição humana foi elevada a categoria divina. Ou seja, o que há de bom no humano é divino e o que há de divino foi profundamente humanizado.

O que mostra então a encarnação? Um Deus humanizado, amante e amado. Um Deus que faz tudo ao alcance para está mais próximo possível à sua criatura. É um Deus próximo! Isto nunca se viu na história das religiões ou da humanidade. É um ato estupefato!

3. A redenção

Com a redenção temos algo nunca pensado ou visto. Deus desce a mais profunda miséria humana, a mais profunda de sua fragilidade: a morte. E dela faz brotar uma esperança antes nunca vista: a vida. A vida eterna.

Eis a grande verdade da redenção: não nascemos para a morte, mas para a vida. Aqui tudo é efêmero, passageiro, limitado, um processo educativo. Existe outro lado da vida que vai para além de nossa fragilidade.

Do ato da redenção Deus nos revela outra realidade: a vida prossegue. Sua criação ainda não acabou, há de levar a termo final. O que nos lembra duas outras verdades de fé logo cedo elaborada pelos primeiros cristãos: a parusia e a escatologia. Ambas são leituras de uma mesma realidade, processo contínuo de um plano que desde toda a eternidade foi pensada no coração do Pai ( Ef 1, 3-10s) segundo o grande apóstolo das nações, são Paulo.

            A parusia é a segunda volta de Jesus, essa volta não é mais como na encarnação, de modo limitado, temporal, segundo as leis da natureza, mas, de modo glorioso, embora esse termo seja limitado para descrever toda riqueza do que seja essa vinda.  Contudo, essa vida indica uma nova realidade mais concreta dentro de um processo estabelecido por Deus.

            A escatologia aponta para o ato final e derradeiro desse processo onde Deus mostra-se em sua essência para a sua criação e onde a criação é plenificada definitivamente. Uma precede a outra e ambas se complementam dentro do processo pedagógico da revelação de Deus.

            Quando? Onde? Como? Nada sabemos, é mera especulação. Mas não é isso a questão. A questão é: Na vida e na história humana, Deus revela-se e revela seu plano de amor. E esse Deus comunica-se, sempre, e hoje do mesmo modo que antes, precisamos, pois está atento a sua fala.  Ele comunica-se e nós precisamos fazer contato.

Conclusão

            Deus revela-se, sua maior forma de comunicação é a pessoa de Jesus de Nazaré. Para aproxima-se, conhecer, amar e seguir Jesus, fazendo a experiência com esse Deus comunicante é preciso conhecê-lo. Naturalmente, a leitura dos Evangelhos é imprescindível; outra é a vivencia comunitária junto aos seus seguidores, a Igreja comunidade de fé; e outra forma é o compromisso radical com os pobres. Porém não são as únicas formas de conhecer e escutar a Deus há que se fazer uma ascese, um treinamento de escuta orante e contemplante de sua presença na vida, na história e na criação. O primeiro passo é começar.

            Eis o mistério da Revelação divina. É assim que, a comunidade cristã em sua releitura da tradição judaica entende e concebe a Deus a luz da fé que intuíram em Jesus de Nazaré.

            Deus é pai com carinho de mãe, é amor e quem ama permanece em Deus.

Para ajudar na reflexão:

  1. Como você vê e entende a Deus?
  2. Qual a relação de Jesus com Deus e como ele o concebe?
  3. O que você sabe sobre parusia, escatologia? O que diz a fé da igreja?
  4. Como podemos vê, ouvir e falar com Deus hoje?

1 Comment on A Revelação Divina

  1. Gostei muito do conteúdo me ajudou bastante a entender a revelação divina segundo a tradição judaico_ cristã.

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