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A Bíblia diz que o profeta Jonas ficou três dias e três noite na barriga de um peixe. É possível?

Por: Ednaildo Cunha

jonasPessoal sobre essa questão passo a vocês, esse artigo maravilhoso do livro de Frei Mauro Strabeli. É muito bom. Recomendo a compra do livro.

                Não há dúvida de que é totalmente impossível alguém ficar esse tempo na barriga de um peixe e ainda sair vivo! E pelo que se sabe, parece que não existe peixe tão grande que possa engolir um homem de uma vez. Existem peixes imensos, como o tubarão, por exemplo, e cetáceos como a orca, que são perigosos para o homem. Mas não engolem suas vítimas sem antes despedaça-las!

                Pelo visto, pode-se perceber que a narração do livro de Jonas não é histórica no sentido de estar relatando um fato que deveras aconteceu. É histórica pelo fato de descrever uma situação difícil, um problema real que preocupava muita gente nos tempos do redator.

                O livro refere coisas estranhas e prodigiosas como se pode verificar: a permanência de Jonas por três dias e três noites na barriga de um peixe; a oração que ele faz dentro da barriga do peixe: um salmo longo e fora do contexto; um pé de árvore que nasce de repente e também seca de repente etc.

                Nada disso aconteceu. Nada disso é histórico.

                E por que a Bíblia narra tal história e insere tal livro como profético, inspirado?

                O que a Bíblia quer ensinar por meio desse livro é uma verdade muito grande. E usa uma história para transmitir essa verdade. Não se pode ficar mais preocupado com o quadro montado pelo autor, com todas as cores que ele usa, do que com o conteúdo que ele quer transmitir. Assim como nas piadas que contamos. O essencial, o importando é o final da história, sempre hilariante, inesperado e ilógico. Quem se preocupar com a lógica da piada, querendo saber o nome do português e outros pormenores, não entendeu o espírito da coisa. Mal comparando, assim é o livro de Jonas. Ele pretende tocar num ponto muito delicado do judaísmo de sua época: o extremismo religioso. O livro apareceu no séc. V antes de Cristo, depois do exílio da Babilônia (587-539), por ocasião da reformas feitas por Esdras e Neemias. Esses dois líderes religiosos, querendo obrigar o povo judeu à observância radical da Lei de Deis, cometeram graves injustiças. A maior delas foi a de exigir que todo israelita casado com mulher estrangeira expulsasse de sua casa tanto a sua mulher como os filhos que tive com ela (Esd 9-10; Ne 13). O motivo era religioso: só o povo israelita era o povo eleito, o povo puro, o povo santo. Os estrangeiros manchavam a nacionalidade e a crença judaicas, contaminavam! Por isso deviam ser excluídos do povo de Deus.

                Mas nem todos os israelitas pensavam assim (Esd 10,15). O próprio livrinho de Rute é um grito contra esse rigorismo arbitrário. Nesse contexto é que aparece também o livro de Jonas. Não é livro histórico, nem profético, mas didático. Quer mostrar que o Deus de Israel é um Deus de amor, é misericordioso para com todos os que o “temem” e que a salva a todos que o procuram.

                Para transmitir essa verdade ou essa mensagem, o livro de usa de liberdade literário-didática, tornando-se obra muito  interessante, cheia de peripécias e de casos engraçados. A mensagem central do livro é esta: Deus salva a tosos. Essa mensagem é um dos pontos altos da teologia do Primeiro Testamento. Por isso o livro é um “sinal” da missão de Jesus, o Salvador de todos (Mt 12, 38-42). Jesus combateu a ideia extremista, nacionalista da salvação particular quando condenou, por exemplo, a intransigência do irmão mais velho, não aceitando na família o irmão mais novo e pecador (Lc 15, 11-32).

                O livro censura então duramente o povo hebreu, simbolizado em Jonas, por não aceitar a vontade de Deus. Jonas (=povo hebreu), ao ser enviado por Deus para pregar a salvação a estrangeiros, foge (1,3). Não quer que os outros se salvem! Quando é obrigado a pregar, vai a Nínive; o povo escuta a mensagem, faz penitência, converte-se, é salvo. Deus se alegra com isso, mais Jonas (povo hebreu) se entristece (4,1) e até pede a morte (4,2-3)!

                O livro zomba dos rigorista hebreus, simbolizados em Jonas (4,5-9); esse, irrita-se e morre de raiva porque o pé de mamona que lhe dava sombra tinha secado! Pediu a morte por isso! E Deus lhe disse que se ele pedia a morte por causa de um pé de mamona que tinha nascido e morrido no mesmo dia, quanto mais o Senhor Javé não deveria preocupar-se com a salvação dos homens! Se Jonas tinha dó de um pé de mamona, não haveria o Senhor de ter dó de um povo tão “ignorante” que não sabia distinguir a mão sequer da direita? (4, 10-11).

                Concluindo, podemos dizer que o livro de Jonas é o livro da misericórdia de Deus (Jn 1,6; 3,9s; 4,2b), o livro da salvação universal. É o única na Bíblia que termina com pergunta direita ao leitor, apostrofando-o para dizer-lhe que a misericórdia de Deus é ilimitado. É misericórdia que Deus tem não só para com os israelitas, a quem libertou do exílio, mas para com todo o povo que se converter a ele e o aceitar como Senhor. Ironicamente o livro mostra que todas as personagens da narração são simpáticas e amigas; o único antipático e azedo é um israelita, “escolhido”, profeta… Se Deus é indulgente com um profeta azedo e antipático muito mais indulgente será para com os povos que o procuram.

                Esse universalismo salvífico do livro de Jonas alcançará a sua máxima expressão no Novo Testamento. Deus é o Deus de todos, Não há mais grego, Judeu, pagão, escravo ou livre. Deus é um só e Pai de todos. Por isso todos os homens são irmãos (Rm 3,29; Mt 23, 8-9).

                O livro de Jonas pode ser considerado profético porque de fato ele lê nos acontecimentos de seu tempo a vontade de Deus: a volta do exílio e o perdão de Deus para um povo que, embora fosse o povo escolhido, era tão pecador e impenitente, mostram que ele quer salvar sempre. Não só os israelitas, mas a todos os homens. Essa intuição do auto é realmente profética.

                O livro de Jonas é, pois, um midraxe, ou seja comentário religioso, didático, de tema bíblico. É também sátira bem-humorada conta toda intransigência e intolerância religiosas.

Fonte: Strabeli , Frei Mauro. Bíblia: Perguntas que o povo faz.  Pag. 86 – Editora Paulus.1991.

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